quinta-feira, 4 de junho de 2015

[Castle Fic] One Night Only?! - Cap.19


Nota da Autora: Antes que perguntem, sim o angst continua. Talvez de uma forma mais branda ou sutil. Nesse capítulo, após o estrago de Josh, o caso irá servir de ponto de recomeço (The Last Call). Uma nova personagem será citada, relaxem! Seu propósito é apenas chacoalhar a detetive. Quem tiver com saudades de Dana, espere o próximo... espero que gostem!  


Cap.19    


Castle ficou parado ainda por alguns segundos ouvindo a explosão de revolta que Kate fazia a poucos metros de si. Ele tinha duas alternativas: podia voltar até onde ela estava e gritar de frustração pelo que acabara de acontecer ou esquecer por algumas horas dela e se acalmar, longe dali.

Se escolhesse a primeira opção, certamente diria a Kate poucas e boas, brigariam, se xingariam e acabaria demonstrando que ainda se importa. Choque de realidade,lembrou. A segunda alternativa é bem mais interessante. Distância era a melhor solução agora. Deu uma última olhada para trás a fim de observar a luta interna que Kate travava consigo mesmo. Não podia dizer que estava satisfeito, ninguém gosta de ver quem se ama sofrer, porém provocar essa confusão a ela poderia ser benéfico para ambos. Suspirou e recomeçou a caminhar.

Já na outra esquina, em frente à estação do metrô, Castle optou por pegar um taxi. Assim que entrou no carro amarelo, foi cumprimentado pelo motorista.

- Boa noite, senhor. Vamos para aonde?

- Você se importaria de rodar um pouco pela cidade antes de lhe dar um endereço certo?

- Noite difícil?

- É, dias difíceis. Uma noite que tinha tudo para ser agradável tornou-se um desastre completo.

- Pela sua cara, ela deve valer muito a pena. A noite é uma criança e esta é Nova York, a cidade que nunca dorme o que faz do seu pedido algo extremamente fácil. Vou circular o parque e depois descer a Broadway. Depois é com o senhor.

- Obrigado – Castle virou o rosto para a janela a fim de observar o movimento. Um tempo fora de casa e sem pensar em Beckett era suficiente para acalma-lo. Essa era a beleza de uma cidade cosmopolita como Nova York. A cada esquina era possível encontrar as figuras mais inusitadas. Bandas de punk rock, pessoas fantasiadas, hare krishnas, um violinista, um pintor. Um caldeirão cultural por metro quadrado.

Abriu o vidro traseiro para respirar um pouco do ar da cidade. O barulho das buzinas se misturava com a música e os gritos dos vendedores nas carrocinhas. Então, ele foi surpreendido com o melhor de todos os aromas. O café. Um cheiro capaz de infiltrar-se no seu cérebro e trazer um único pensamento de volta a sua mente. Kate Beckett.

Após um tempo sem pensar no que acontecera bem na frente do distrito, ele conseguia analisar o que sentira de maneira diferente. Encontrar aquele médico idiota fora certamente a pior coisa que podia ocorrer. Vê-lo todo assanhado para o lado de Kate fazia com que ele imaginasse como seria socar aquele rostinho de almofadinha. Teve que se controlar bastante para não fazer uma cena na frente dela, isso acabaria com a sua estratégia.

Por outro lado, apesar da noção de tempo totalmente equivocada de Josh, a dor fora amenizada por um lado positivo. Pela primeira vez, viu Kate demonstrar repulsa e mesmo inconsciente ficou ao seu lado, escolheu a ele. Só que nem tudo são flores. Descobrir que além do encontro ela havia beijado o médico era repulsivo. Incomodava o fato de saber que se não fosse por essa infeliz aparição de Josh, talvez ele nunca soubesse do beijo.

Uma droga, ela disse. Isso fez Castle sorrir. Ponto para ele. O melhor foi ver Kate irritada consigo mesma. Será que fora sincera ao dizer que evitou falar do beijo para poupa-lo? Podia ser o diálogo que ele esperava ouvir... não, ela estava com o mesmo olhar desesperado de quando pedira para voltar a trabalhar com ela. Doía saber que ela beijara outros lábios, tentara navegar em outras águas, viver uma mentira como se quisesse provar a si mesma que podia se esconder em um relacionamento falso, sem sentimento apenas por medo de admitir o óbvio. Para evitar de ficar com ele.  

Por que a mentira? Quanta besteira em uma única decisão, Kate. Difícil de se acertar, entender, sempre escolhendo o lado mais complicado da estrada. Algum dia ela cairia em si?

- Chefe, pode parar na próxima cafeteria que aparecer? Eu realmente preciso de um café especial.

- É pra já, e depois, o senhor já sabe aonde quer ir?

- New York Public Library.

- A essa hora? Já está fechada...

- Eu sei, vamos ao Bryant Park atrás dela. Você sabia que sempre tem alguém tocando por ali, especialmente nas noites de verão? Vamos rodar por mais uma hora. Depois você pode me deixar em casa.

- Tudo bem.


XXXXXXXXX   


Kate lutava contra as lágrimas. Dessa vez, o choro era de frustração. Não podia estragar tudo novamente. Eles estavam começando a ficar bem. Socou a parede com tanta raiva que sentiu a dor nas juntas. Com os braços cruzados no peito, ela se escorou no prédio da esquina, fechou os olhos mesmo diante da penumbra. Ela esperava aproximar-se de Castle novamente. Uma refeição, algumas risadas e uma boa conversa. Era pedir demais? Kate nunca fora uma pessoa com crenças ou superstições, porém ultimamente se questionava se o universo estava agindo contra ela. Todas as vezes que tentava fazer algo para galgar mais um degrau na sua relação com Castle, alguém os atrapalhava.

Castle.

O que você está fazendo parada nessa esquina que não foi atrás dele? Meu Deus! Deixe de ser idiota, Kate.

De repente, uma força inexplicável tomou conta dela. Queria falar com ele, consertar o mal entendido. Ele não falara a verdade ao afirmar que nada daquilo importava, que sua vida pessoal não lhe dizia respeito. Conhecia-o a ponto de compreender que aquele era um comentário feito da boca para fora, em um momento de revolta. E quem poderia culpa-lo depois do que presenciara? Apressada, ela seguia pela rua até a estação. Seria uma viagem longa até o apartamento dele, mas não ia deixar a oportunidade de consertar o ocorrido. Não quando começavam a se entender novamente.

Ela saltou na estação mais próxima ao prédio dele, mesmo assim ainda teria que andar uns cinco quarteirões. Esperava encontra-lo em casa, de preferência sozinho. Não havia motivo para o porteiro não deixa-la subir. Estava sempre por ali, era um rosto familiar no prédio. Facilmente o cumprimentou e subiu pelo elevador.

Caminhou por várias vezes no corredor do apartamento dele. Estava inquieta. Tinha medo que Castle não quisesse escuta-la. Gostaria de convencê-lo, precisava disso. Resolveria seus próprios problemas, era capaz não? Nada de Dana, ela agiria sozinha. Em um impulso, ligou para o celular dele. Após seis toques, a ligação caíra na caixa postal. Não deixaria recado, obviamente ele não queria falar com ela. Resignada, porém determinada a não desistir, Kate sentou-se na soleira da porta e esperou.    

Após um café, uma bela sinfonia no. 5 de Beethoven e uma taça de vinho, Castle decidiu que estava na hora de ir para casa. O taxista sorriu ao receber o endereço. Estava rodando a mais de duas horas, iria faturar uma boa grana, porém não sentia-se confortável com isso. Aquele homem estava sofrendo por amor, via-se em seu rosto que estava apaixonado. Coração partido é uma parte do amor que sempre nos deixa triste, desnorteado. Precisava que alguém dissesse a ele que não havia acabado.

Quando parou na frente do prédio, agradeceu ao motorista, pagou-o e deu uma boa gorjeta. Sorrindo, o rapaz apertou a mão de Castle e não segurou a língua.

- Senhor, sei que sou um simples taxista, mas em matéria de problemas do coração, já tive minha cota de desilusões. Vou lhe dar um conselho. O que quer que esteja atrapalhando sua relação com a pessoa amada, o melhor remédio sempre será a conversa. Nós, homens, geralmente não gostamos das DR’s então se preferir, apenas escute. Afinal, Deus nos deu dois ouvidos e uma boca com um propósito.

- Vou me lembrar disso, obrigado – Castle entrou em seu prédio sorrindo. Devia estar com uma cara péssima para um motorista de taxi lhe dar conselhos. Mal sabe ele que nessa relação, ele muitas vezes assumia o papel da mulher. Era sempre ele quem buscava a discussão, falava demais, colocava seus sentimentos à prova para a mulher que ama. Talvez, o taxista tivesse razão. Em vez de expressar o que sentia querendo forçar Kate a se abrir, por que não experimentar ouvir? Se é que ela tem algo a dizer.

Ao sair do elevador, Castle se deparou com uma cena inusitada. À frente de sua porta, estava Kate. Sentada no chão com as pernas cruzadas e o casaco sobre seu colo, escorava a cabeça na madeira. Tinha os olhos fechados. O que ela estava fazendo aqui? Aproximou-se devagar de onde ela estava bloqueando a lâmpada. A escuridão a fez abrir os olhos percebendo o movimento.

- Kate...

- Castle... eu já estava preocupada. Estou a mais de duas horas aqui.

- Não me lembro de ter hora para chegar em casa – ouch! Não precisa ser tão duro. Você não é um ogro e sim um cavalheiro. Para provar isso a si mesmo, ele estendeu a mão ajudando-a a se levantar. Beckett agradeceu o gesto ficando de pé bem próximo a ele – não vi seu carro lá fora...

- Eu vim de metrô... eu nem pensei e... – calou-se para fita-lo em meio a um longo suspiro. Castle pegou a chave e fez menção de abrir a porta do loft, mas ela o impediu.

- Castle, por favor, antes que me mande embora, poderia deixar ao menos eu me explicar?

- Explicar? Não me lembro de ter pedido alguma explicação a você, Beckett.

- É, eu sei. Você foi bem claro quando disse que não se importava. Está realmente tornando esse momento bem desconfortável para mim. Eu pensei.... é, a quem quero enganar? Já expliquei meu erro antes e não me sai muito bem. Não devia ter vindo.

- Kate, você explicou e não convenceu. O que poderia falar de diferente para me fazer esquecer o fato de que não foi honesta comigo?

- Exato, está certo – ela baixou a cabeça, o movimento involuntário quase a encostando no peito dele, as palavras de Castle quase a fizeram desistir. Não, ela viera até ali com um objetivo - Eu gostaria de tentar... – ele viu a sinceridade no olhar daquela bela e confusa mulher. Demandava coragem estar ali após o acontecimento de horas atrás. Por que não? Não custaria escuta-la, afinal viera até ali disposta a isso, certo? Se não o convencesse, pelo menos ele teria uma ideia do que esperar daqui para frente com Kate.

- Tudo bem. Vamos entrar.

- Não! Aqui no loft, não. Preferia que estivéssemos a sós.

- Se está preocupada comigo, que eu possa me exaltar... isso não vai acontecer. Conversaremos no meu escritório, teremos privacidade – não esperou a concordância de Kate, passou a chave empurrando a porta para dar acesso à sala - Primeiro as damas.

Kate entrou um pouco relutante no loft. Tinha boas memórias daquele lugar, exceto pela última madrugada. Hesitante, ela parou no meio da sala, correndo os olhos pelo lugar esperando por Castle. Ele caminhou em direção ao escritório fazendo sinal para que o seguisse. A coragem que a trouxera até ali, tão clara e persistente, parecia querer abandona-la agora que estava frente a frente com ele. Engoliu em seco ao ver Castle tornar a fita-la.

- Sente-se, Kate. Quer beber alguma coisa? Pode ajuda-la a combater essa ansiedade que vejo estampada em seu rosto, na sua linguagem corporal.

- Não precisa. Estou bem assim – respondeu de cabeça baixa, o discurso mais falso de todos “estou bem”, não enganava nem a si mesma com essas palavras.

- Eu preciso de uma dose de vodca – serviu-se e com o copo na mão sentou-se na sua cadeira confortavelmente. Tomou o primeiro gole da bebida ainda observando-a. Estava nervosa, as mãos pareciam não encontrar posição ou destino certo. Tinha a impressão que se não começasse a falar logo, teria um colapso bem a sua frente. Castle decidiu por não tortura-la mais. Ele já ouvira o bastante naquela noite para saber que ela estava arrependida do que fizera. Mesmo assim, seria interessante ver qual explicação daria, tão necessária a ponto de fazê-la vir até sua porta, pela segunda vez altas horas da noite.

- Kate, eu a deixei entrar aqui porque você disse que quer se explicar. Então, pode falar. Eu serei todo ouvidos – ela passou a mão pelos cabelos tentando controlar o nervosismo. Pensava nos conselhos de Dana. Fale apenas o que vier do seu coração. Não tente criar um discurso racional. Suspirou.

- Castle, não vim aqui para dar desculpas ou me justificar. Você sabe que não é fácil para eu iniciar uma conversa dessas. Fui pega de surpresa hoje à noite. Fiquei tão atônita com aquilo que não conseguia raciocinar. De repente, eu estava ali sendo assediada e vendo você sair de um estágio alegre para o mesmo semblante que me deparei naquela madrugada. Não quero mais ver esse olhar em seu rosto.

- E qual foi a explicação lógica e racional que você encontrou? – atice a racionalidade dela, pensou. Beckett mordeu os lábios, sim merecia o sarcasmo.   

- Eu aprendi a duras penas e com a ajuda de uma pessoa que não se deve falar demais, se justificar demais a menos que realmente signifique algo importante e sincero. O que disse lá na rua para você é a mais pura verdade. Eu não contei sobre o beijo porque queria poupa-lo, você já estava chateado, magoado o bastante, então para que cutucar ainda mais a ferida? Não é nada fácil ver a tristeza no seu olhar, Castle.

Ela se calara por alguns instantes, esperando por uma palavra dele. Queria saber se ele acreditava nela. Castle apenas a fitava. Conseguia ver pela forma que a olhava que estava estudando seu semblante, suas reações. Como escritor, ele tinha o dom de ler muito bem as pessoas. Bastou um primeiro encontro para decifrar grande parte de suas escolhas. Com o tempo, Castle tornou-se um expert em ler as entrelinhas dela. Como se enxergasse além de suas defesas. Isso apenas tornava a sua situação mais difícil porque evidentemente abrir-se não era seu forte. Por que ele está calado?

- Você não vai dizer nada?

- Acredito que você não terminou de falar tudo o que pretendia, não? Continuo aqui, escutando.

- Tudo bem. Tem razão, não terminei. Assumo o erro que cometi não somente em sair com outra pessoa, mas também ao omitir sobre o beijo. Sem mentiras. Quero que saiba que aquele beijo, não significou nada. Foi tão errado quanto todo o encontro. Resultado de uma decisão idiota como já expliquei, não há necessidade de ficar me repetindo em relação a essa burrada. Quando pedi para voltar a trabalhar comigo, fui sincera. Quero meu parceiro de volta, teorizando e desvendando crimes como fizemos hoje. Esse encontro inesperado, ele não pode ser responsável por mudar isso.

- Kate já disse que nossa relação profissional continua... – ele jogara a isca para ver se a instigava a dizer o que queria, não era assim que ela começara a conversa? Querendo dizer o que lhe fosse sincero? Kate mordiscou os lábios, era sua oportunidade de expor o que realmente queria dele. Arriscar. Respirou fundo.

- Castle, eu ouvi o que você disse sobre manter a relação profissional e não se importar com o que faço da minha vida pessoal. Poderia ser uma opção se você fosse uma pessoa fria e sem coração. Não é o caso. Você não é um homem ruim, mesquinho. É por isso que pedia para voltar como meu parceiro. Pelo que você é e representa, sua essência. Eu quero um parceiro que divida comigo os momentos difíceis, as teorias malucas, as dúvidas. Preciso de alguém que se importe ao meu lado, não um funcionário padrão que trabalhe oito horas por dia, incapaz de se envolver emocionalmente com a vítima, com a história. Não é assim que eu sirvo a NYPD e não espero menos do que dedicação e compreensão do meu parceiro. Eu o escolhi pelo seu coração, sua emoção e sua capacidade de pensar fora da caixa. Ponto de vistas diferentes fazem uma boa parceria.  

Arriscando-se um pouco mais, ela se esticou até tocar-lhe a mão.

- Não quero que deixe de ser quem você é por estar magoado comigo, Castle. Não mude, por favor. Eu não aguentaria carregar mais essa culpa na minha consciência.

Kate esperava uma resposta ansiosamente, um sinal de que fizera a coisa certa dessa vez. Suas palavras foram simples, diretas e sinceras seguindo o conselho de Dana. Será que teriam o efeito necessário em Castle? Ao menos para que não tivesse sido em vão todos os pequenos gestos que já conseguira conquistar até aquele fatídico momento.

Castle sentia o calor da pele de Kate sobre a sua. Um toque tão simples e tão significativo. Gostara do que ouvira. Era a hora de ceder um pouco.

- Eu aprendi há muito tempo atrás que não importa quantas decepções ou obstáculos a vida nos apresente, a essência de uma pessoa permanece, a base se mantém. A evolução acontece, porém apenas serve para intensificar ainda mais suas melhores qualidades. Não se preocupe comigo, Kate. Jamais poderia me tornar indiferente a um assassinato, ao sofrimento de uma família ou ao motivo que leva indivíduos a cometer atrocidades todos os dias. Sou um homem movido por histórias, elas são parte da minha essência, parte de quem eu sou. Não duvide de mim. Eu já expliquei antes. Tudo ou nada. A regra também vale no ambiente profissional.

- Eu nunca duvidei, Castle. Apenas confesso que fico muito feliz em ouvir isso – e assim Kate deu o primeiro sorriso da noite – se você não tem mais nada a dizer, acho melhor eu ir embora. Obrigada por me dar a chance de conversar com você – ela se levantou e Castle fez o mesmo. Instintivamente, ele colocou a mão nas costas dela guiando-a até a porta. Abriu-a com cuidado.

- Kate, eu escutei tudo o que disse. Não assimilei totalmente, de verdade. Aprecio sua coragem e sua sinceridade. Espero que a partir de agora você cumpra com a sua promessa. Sem mentiras e segredos. Portanto, preciso reafirmar que a nossa proposta de trabalho não mudou. As regras antes acordadas continuam. Só achei que deveria reforçar isso.

- Eu entendo, Castle. Repito, é mais do que poderia querer depois de tudo. Até amanhã?

- Sim, e pegue um taxi. Não vá usar o metrô a essa hora da noite. É perigoso.

- Castle, sou uma policial, ando armada e sei me cuidar.

- Ainda assim. A noite todos os gatos são pardos, inclusive os médicos. Boa noite, Beckett – disse fechando a porta atrás de si.    

No dia seguinte, Kate chegou bem cedo ao distrito. Não tinham um caso, mas precisava terminar o relatório e arquivar. Também queria manter a mente ocupada. Sua conversa com Castle ontem fora, ao seu ver, melhor que a anterior. Lógico que era apenas sua opinião. Castle não dissera muito na noite anterior, apenas reafirmou que estava comprometido. Isso, ela ainda testaria quando tivessem o próximo caso.

Ryan veio até sua mesa trazendo uma caneca de café.

- Hey, Ryan...

- Você madrugou aqui? Vou começar a redigir o relatório de ontem. Resolvi trazer um café para começar o dia.

- Obrigada.

Ela sorveu um gole do café respirando fundo o aroma quente e saboroso de um bom grão expresso. Definitivamente, aquela máquina fora a melhor coisa que Castle fizera pelo distrito. Desviou sua atenção ao computador. Quinze minutos depois, Esposito sentou-se ao lado dela quando bebia mais um pouco do café.

- Beckett encontrei Tom ontem. Não sabia que vocês tinham terminado.

- É, há algumas semanas.

- Então, aquelas flores não eram dele? Por isso que Castle ficou com tanta raiva. Você tem um admirador secreto ou está saindo com um novo namorado e não nos contou? Quem é ele, Beckett?

- Espo, por favor...

- Deve ser um cara boa pinta para fazer Castle desaparecer em questão de minutos daqui. Você podia dividir as novidades conosco. Vai ser legal implicar com ele por causa disso.

- Espo, pare...

- Já até posso ver a cara dele bufando de raiva por estarmos irritando-o. Vou ter que contar essa para o Ryan.

- Esposito, pare! – ele se assustou com o tom elevado da voz. Olhou-a intrigado – não quero discutir sobre isso. Estamos em um ambiente de trabalho e não admito que fique falando da minha vida pessoal desse jeito. Você tira uma gracinha com Castle e eu vou começar a tirar sarro com a sua cara e a relação com Lanie – viu o olhar surpreso dele – é, ou você acha que não sei? Lanie é minha amiga então se não quer virar a fofoca do departamento, mantenha seus pensamentos e provocações para si.

Ele levantou as mãos em sinal de rendição e afastou-se dela. Terreno perigoso, pensou.

Beckett estava se acalmando da irritação que passara com Esposito quando seu telefone tocou. Tinham um novo caso. Automaticamente, ligou para Castle avisando que passaria para pegá-lo. Ele estava aproveitando a manhã para escrever. De certa forma, sua conversa de ontem à noite com Beckett o deixara um pouco animado. Havia uma mudança ali, pequena e ainda assim uma mudança. Também ficou intrigado com um dos comentários dela sobre uma pessoa ter lhe ensinado. Essa era nova. Será que Kate estava dividindo seus problemas com outro? Não seria Lanie, não. A médica não conseguiria manter segredo especialmente perto dele. Era capaz de confronta-lo. Então, quem? Seu pai? Fora de questão. E se fosse Maddie? Castle não teria como saber, elas eram amigas... definitivamente, Kate atiçara sua curiosidade, contudo teria que se contentar com as suposições. Perguntar não só atrapalharia sua estratégia como provaria que estava interessado.

Quando Kate ligou para informa-lo de um novo caso, ele a agradeceu. Acabara de presenciar a chegada de uma visita que o deixara um pouco surpreso, o reencontro de Alexis e uma de suas melhores amigas no fundamental. A menina adquirira um estilo gótico. Kate acabou concordando que as lembranças desse tempo não eram tão boas assim para ela também. Passara a maior parte do tempo com aparelho ortodôntico. Castle se surpreendeu com a descoberta.

- Quer dizer que você não nasceu com esse sorriso deslumbrante?

- A única coisa deslumbrante era quanto tempo meus pais levaram para pagá-lo – abriu o sorriso perfeito para ele e Castle agradeceu mentalmente por ela estar com os cabelos presos em um coque. A imagem de Kate Beckett e seus dentes brancos e perfeitos já era difícil o bastante de resistir sem o balanço provocante de seus cachos incríveis. Mordeu os lábios sacudindo a cabeça. Pare, Castle.

O corpo fora achado no rio, pescado para ser mais precisa. Ao ver o corpo deformado a sua frente, Castle vibrou torcendo para ser um caso da máfia. Infelizmente, estava errado. Donny a vitima trabalhava nas docas por longos e acabou por vender sua inscrição e identidade do sindicato para um outro cara que se passava por ele na costa leste. A vitima precisava de grana. Vinte e cinco mil dólares. Mais do que isso, Lanie descobriu no ferimento principal que causara sua morte, um caco de vidro vermelho possivelmente de uma garrafa ou vaso. Também descobriram que a vitima tinha na verdade 150 mil dólares em conta que simplesmente desapareceram depois de sua morte para a conta de um agiota e jogador. Aparentemente, Donny morrera antes de sanar sua dívida com o golpista.

Beckett acabou por descobrir que não se tratava de dívidas de jogo e sim da compra de um bar. The Old Haunt, um clássico desde a época anterior a lei seca. Leo, o dono original era uma lenda. Estava prestes a vender para o seu bartender quando Donny fez uma oferta e comprou o bar. Era a única família que possuía. Castle conhecia o lugar, costumava frequenta-lo bastante alguns anos atrás, hoje nem tanto. Lanie confirmou que o caco de vidro continha traços de álcool, o que tornava o bar o potencial local do crime.

- Então, Castle... posso te pagar um drinque?

- Oh, detetive Beckett pensei que nunca iria me perguntar.      

Estavam quase chegando ao local quando Beckett não conteve mais sua curiosidade.

- Então, Castle quão bem você conhece esse bar?

- Bem, não venho aqui em anos. Desde Alexis, mas escrevi a maior parte do meu primeiro livro aqui.

- Ah, isso explica muito.

- Vendeu mais de três milhões de cópias.

- Não, falo porque você está tão excitado.

- É cheio de história. Primeiro uma ferraria, depois um bordel. Somente tornou-se um bar durante a proibição como ilegal, e esse era um dos melhores. Juro, ainda posso sentir a vibração de todo episodio notório de glamour e sensualidade nessas paredes.

Ela adorava vê-lo empolgado com algo, a maneira como se encantava sempre conhecendo o passado das coisas, a história. Era uma das qualidades que mais admirava nele. A capacidade de se maravilhar com coisas aparentemente simples. Sendo assim, seu papel era de sempre trazê-lo para a realidade, o que não deixava de ter um toque de implicância e provocação. Estavam tendo um dia bem promissor, portanto sentiu-se confiante em arriscar.

- Calma, Castle. É só um bar – enquanto ele tagarelava sobre não ser apenas um bar, mal reparou que Beckett retocava a maquiagem e soltara os cabelos remexendo-os com os dedos soltando os longos cachos exatamente do jeito que ele adorava.

- O que você está fazendo?

- Não vou conseguir muito do Bryan parecendo uma policial.

- Disfarce. Eu gosto disso. Devia abrir mais um botão, por precaução – ele sugerira, mas não imaginava que Beckett iria levar sua colocação tão a sério. De fato, ela abriu não um, mas dois botões deixando parte do sutiã à amostra. Por que ela tinha que olhar e parecer tão sensual ao fazer isso? Virou-se de costas para ele e começou a descer as escadas. Castle não percebera que estava prendendo a respiração. Deus! Por que se torturava tanto? Recompondo-se, seguiu ao encontro dela no bar.

Quando entraram no bar, Beckett pode perceber o motivo da excitação de Castle. Era um daqueles lugares que te remete aos anos 30,40, épocas de gangster com toque especial irlandês. Pode observar as garrafas de whisky Jameson na parede por trás do balcão principal. A música ao piano combinava com o local. Ao se aproximarem do piano, Eddie tocou uma batida especial. Eram as notas que sempre tocava quando via o escritor.

Castle a levou até uma das cabines. Havia fotos espalhadas pela parede.

- Vem aqui, cheque a parede da fama. Quem é esse lindo demônio a duas fotos de Hemingway diretamente acima da infame cabine onde “Na frente da bala” foi criado?

- Meu Deus, Castle, você era tão fofo naquela época – ela sorria maravilhada.

- Naquela época? – então ela perdeu o sorriso para não dar bandeira, nem causar um momento estranho entre eles dirigindo-se ao bar. Mesmo assim, ele estava satisfeito ao vê-la apreciar a foto e o bom instante em um lugar especial para si. Escorados no bar, ele não podia deixar de comentar sobre o passado.

- Tantas memórias – Beckett já observava o espaço. Encontrou uma foto de Leo e Donny, nada de garrafa vermelha.

- Bem-vindo ao The Old Haunt, gente.

- Oi – ela disse jogando o cabelo para trás – o Donny está por aqui?

- Não ainda, mas estará e não se importara nem um pouco que você esteja sentada no lugar dele.

- Sentia que era o lugar certo por alguma razão – ela disse flertando e sorrindo. Esticou a mão para cumprimentar o bartender – sou Kate, uma velha amiga dele. E esse é o Rick – emendou depois de um olhar que recebera de Castle.

- Brian. E qualquer velho amigo de Donny, é um novo amigo meu.

- Me diga, Brian. Você por acaso não carrega um licor que é realmente delicioso – ela pega umas cerejas do pote a sua frente levando-as a boca apenas para tornar a conversa mais interessante – e vem numa garrafa vermelha – ao ver o que Kate estava fazendo, ao colocar a pequena cereja na boca sem perder o contato com Brian, Castle se intrometeu na conversa para evitar o ataque de ciúmes, mas deixar claro que ela tinha dono de alguma forma.

- Sim, essa garrafa vermelha nós bebemos na pequena cantina em Tierra del Fuego? – Kate olhou sorrateiramente para ele enquanto colocava outra cereja na boca. Brian, por sua vez, dedicou-se a procurar algo no formato que ela pedira.

- Nada vermelha aqui, só marrom, verde e transparente. Deixe-me checar o fundo.

- Você viu isso?

- Sim, ele não percebeu que estamos juntos? – ao olhar curioso de Beckett, ele consertou – disfarce.

- Não, a reação dele quando mencionamos Donny. Não acho que ele saiba.

Brian retornou com uma negativa. Nada de garrafa vermelha. Sugeriu servir uma vodca da garrafa azul. Kate agradeceu revelando que era muito cedo para vodca e claro informando seu real propósito no bar mostrando o distintivo. Após conversarem com Brian, Castle e Beckett acabaram descobrindo sobre o porão onde era o escritório de Donny, mais motivos para o escritor adorar o local. Ela encontrou uma bala de chumbo na parede. Também souberam de um problema a duas semanas atrás. Um cara barra pesada que frequentava o bar tentara abusar de uma das funcionárias. Donny o expulsou e quebrou os faróis de sua pick-up dizendo que não queria vê-lo ali nunca mais. Porém, ele aparecera exatamente na noite anterior, a noite em que Donny fora assassinado.

De volta ao distrito, Beckett tratou de procurar maiores informações sobre o tal Pete. Porém, quando foi atualizar Castle das descobertas, percebeu que ele pouco ligara para o que ela falava. De repente, ergueu a cabeça do bloco de notas que rabiscava e perguntou espontaneamente.

- O que você acha de The Castellion?

- O que?

- The Old Haunt me lembrou do quanto viral a cultura dos bares é nessa cidade. Pensei, por que não abrir um pequeno bar?

- Então,em vez de comprar uma bebida, você vai comprar o bar inteiro? – ela não estava acreditando na viagem do homem a sua frente.                
- Minha maneira de retribuir.

- É para o seu ego – ele estava falando sério! Beckett quase não acreditou.

- The Ego. Hum... – era inútil, Beckett pensou revirando os olhos, ele esquecera totalmente do caso. Ela precisava trabalhar e Ryan e Esposito trouxeram Pete para interrogatório. Chegaram a outra pista morta, porém ficaram bastante desconfiados por Donny dispor de mil dólares em dinheiro vivo para pagar pela destruição da caminhonete. De onde vinha o dinheiro foi a missão que dera aos rapazes. E deu certo encontraram um recibo de uma casa de leilão em Nova York. Recebera por algo valioso.

Reviravoltas à parte, Beckett acabou descobrindo que Donny tivera em suas mãos uma garrafa remanescente do mais puro whisky escocês de 1875 pertencente a ninguém menos que Jimmy Walker, ex-prefeito de Nova York. Uma garrafa vermelha vendida a 26 mil dólares para um geek milionário. As surpresas não acabariam ali. A garrafa continuava intacta, o que dizia que havia mais delas. Sem conseguir se desvencilhar da história, Castle acabou se lembrando do esconderijo nunca encontrado do antigo prefeito. E se o grande segredo de Leo fosse exatamente isso?

Num palpite, ele arrastou uma não tão satisfeita Beckett de volta ao The Old Haunt mostrando a ela porque aquele porão era tão importante. Juntos, eles acharam uma passagem secreta bem como várias garrafas do whisky escondidas em um lugar dentro do antigo esgoto da cidade. Parecia uma aventura nada agradável, mas excitante. Uma sala completa pertencente a Beau James diretamente da época da lei seca. Castle queria muito uma daquelas garrafas, precisava prova-la.

As evidências apontavam aquele lugar como a cena do crime, encontraram a arma do crime, o caminho para despejar o corpo no rio e sinal de que havia alguém ali em baixo. Perseguindo o vulto, ele desapareceu bem na frente deles. Estavam literalmente entre quatro paredes. Novamente, Castle teve uma das suas brilhantes ideias que ajudaram a solucionar o caso.

Castle desejava uma daquelas garrafas, mas aparentemente Montgomery não as liberaria. Porém, era apenas um pequeno truque. O capitão convenceu o prefeito de que por uma boa doação ele poderia ter a garrafa. Ficou lisonjeado e emocionado com o gesto, Kate ria observando o jeito de menino surgir a sua frente tomando conta do homem. Queria compartilhar o momento com todos. Montgomery já foi o primeiro a estender o copo.

- Não aqui – disse Castle – no The Old Haunt. Brindaremos a Donny e à família dele.

- E o que acontece com o bar? – perguntou Ryan.

- Vai voltar para o banco, provavelmente será comprado por TJ como era previsto – disse Esposito.

- Eu não me preocuparia com o The Old Haunt – disse Castle.

- Você comprou, não foi? – Beckett disse impressionada. Ele apenas sorriu para ela, perguntando.

- Então, vai se juntar a nós?

- Eu adoraria – disse retribuindo o sorriso – mas eu tenho muita papelada.

- São nove horas de um sábado! A multidão se aproxima.... – e assim ele começa a entoar os versos de Piano Man. Claro que todos entram na brincadeira e deixam o distrito juntos para uma noite de drinques no novo bar de Castle.

O primeiro copo do whisky, desceu de maneira espetacular. Era uma bebida dos deuses. Castle não tomara nada assim antes.

- Com certeza um dos melhores que já tomei – disse Montgomery.

- Para mim, definitivamente o melhor – disse Castle.

- Minha veia irlandesa tende a discordar, quer dizer, é muito bom, mas em algum lugar da Irlanda deve existir um melhor – disse Ryan. Castle serviu-se de mais uma dose da bebida. Fechava os olhos enquanto saboreava o liquido descendo por sua garganta. Tão perfeito quanto... sim, seu pensamento voltou-se à mulher sentada bem a sua frente embora interrompido pelo comentário de Esposito.

- Olha só para a cara do Castle. Parece que não há nada mais ao redor dele.

- Isso chama-se degustar, Espo – Kate disse sentindo a necessidade de defende-lo.

- Sei, parece que está tendo um orgasmo – ele retrucou.

- Na verdade, Esposito só existe uma coisa tão saborosa como essa bebida.

- Ah, nem precisa dizer! Só pode ser sexo – disse Espo rindo. Castle não pensou em não retrucar a resposta, contudo era bom deixar claro o quão errado Esposito estava.

- Ah, Esposito. Você sabe muito pouco da vida. Existem coisas mais importantes - apenas sorriu e levantou a sobrancelha antes de virar seu olhar em direção a Kate. Não era sexo, embora fosse um ótimo complemento. Tudo o que ele queria para substituir o whisky eram os lábios dela. Nada era mais saboroso do que o beijo de Kate.

Ela sentiu o olhar, mesmo disfarçado, de Castle. Sentiu o corpo vibrar, os pelos do braço eriçarem. Virou o copo de uma vez e pediu licença para ir ao banheiro. Um calor súbito a acometera. Podia culpar a bebida, mas no fundo sabia ser exclusivamente os intensos olhos azuis de Castle que provocaram isso nela.   

Por duas horas, eles comeram, beberam, Castle fez o seu melhor papel de anfitrião contado histórias antigas do bar e do tempo da lei seca. Risos, muitos risos criaram a atmosfera de uma excelente noite em companhia com os amigos. Ele percebera que Kate estava mais relaxada e não pode ignorar os olhares que lançava a ele de vez em quando. Obviamente, em nome das boas regras estabelecidas por ele, fingiu não perceber nada. Exceto que as cerejas tiveram um lugar de destaque na noite, lugar que ele certamente gostaria de estar. Dava tudo para ser aquelas cerejas.

Aos poucos os amigos foram deixando o lugar. Quando estavam apenas ele e Kate, Castle pediu licença para descer até o porão. Foi surpreendido pelo desejo dela de acompanha-lo. A maioria dos pertences de Donny já foram retirados. Os moveis antigos, a estante e alguns objetos permaneciam no local. Kate circulava o espaço e acariciando com a mão a mesa de madeira legitima, ela comentou.

- É realmente fascinante. Um lugar assim. É a primeira vez que me deparo com isso em Nova York. Sabe o que mais é surpreendente? O jeito como você lida com tudo isso. Seu entusiasmo, sua paixão. Sua visão das coisas consegue vislumbrar coisas extraordinárias em meio a situações simples. Esse bar por exemplo. Sua admiração pela história é tão grande que o fez comprar esse lugar – Castle escutava o que Kate dizia um pouco surpreso com a declaração. Teve que controlar-se para não tocar aquele rosto e roçar seu polegar naqueles lábios.

- Você não considera esses fatos interessantes?

- Sim, claro que sim. É que observando o seu modo de ver a vida, percebo o quanto nossas visões são diferentes.

- Isso soa como algo ruim.

- Não, pelo contrário. Eu me sinto contagiada, feliz por ser testemunha de momentos como esse. Observar sua visão mostra para mim o quanto eu perdi dessa capacidade de me maravilhar com as coisas. Minha mãe tinha um pouco disso, já meu pai sempre foi o mais centrado. Acho que perdi esse lado quando ela morreu. É meio engraçado, somente agora me toquei que as únicas vezes que experimentei uma sensação parecida foi ao ler os seus livros.

- Engraçado, por que? Será que você não quer dizer interessante ou intrigante?

- Castle não estou zombando do seu trabalho. Apenas acabei de perceber que seus livros me proporcionam o mesmo sentimento. Que coincidência!

- Coincidência?  Até onde sei, detetive, você não acredita em coincidências. Não seria mais correto afirmar ser uma obra do destino?

- Acho que você já sabe depois desse tempo comigo que não acredito em destino, apenas em trabalho duro e que você luta pelo que quer.

- Interessante, talvez por isso se sinta tão chocada com a minha inclinação para o fantástico.

- É, talvez. Um pouco de doce faz bem na vida de todos, não? – ela sorriu.

- Sim, na verdade nada funciona na vida sem tempero, doce, amargo e principalmente pimenta para nos deixar vibrantes – hum... provocação? Melhor mudar o rumo da conversa, pensou Kate.  

- O que pretende fazer aqui nesse escritório? Remodelar?

- Claro que não. Irei manter a atmosfera rústica e antiga. Darei meu toque pessoal, trazer alguns livros, umas fotos. E por que não fazer desse lugar meu canto de inspiração para os livros que escrevo – os olhos azuis brilhavam de empolgação - resgatar meus primeiros anos como escritor, Alexis não precisa tanto de mim como antes e esse lugar é como um refúgio – Kate mordia os lábios louca para abraça-lo e beijar aqueles lábios. Esse lance de não toca-lo estava matando-a.  

- Wow! Parece que você já se sente em casa – o que Kate não sabia era que Castle podia ver o olhar bobo no rosto dela, típico de quem está maravilhada e porque não dizer apaixonada? Será que o jogo começava a virar a seu favor? – vou encerrar a noite, amanhã é o único dia de descanso que tenho. Você ainda vai ficar por aqui? Posso te dar uma carona.

- Eu vou aceitar – disse Castle acompanhando-a pelas escadas. Ao parar seu carro na frente do prédio dele, Kate despediu-se e antes que ele sumisse de sua vista, ela comentou.

- Castle, obrigada pela ajuda no caso de hoje. Sem o seu conhecimento sobre a história e sobre o bar não teríamos conseguido.

- Não considera tudo uma coincidência o fato do bar que Donny comandava era o mesmo onde escrevi durante bons meses?

- Não. Sua teoria estava certa porque conhecia a história do tempo da lei seca. O melhor do caso foi mesmo adquirir o bar. Ele realmente merecia um dono como você – sorriu – boa noite, Castle.

- Até segunda, detetive.


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Na manhã de segunda, Kate estava se arrumando de frente para o espelho. Como parte do ritual, ela passou o cordão com o anel no seu pescoço. Enquanto olhava seu reflexo, lembrava-se dos momentos que vivera no último caso. Sentia que conseguira quebrar um pouco do gelo que se formara entre ela e Castle. Estavam brincando novamente, sorrindo. Ainda não ganhara o café, portanto não era uma vitória completa. A verdade era que se sentia mais relaxada ao lado dele. A cada momento ela descobria coisas novas sobre ele, surpreendendo-a positivamente. Talvez a fase ruim já tivesse passado. Chega de situações estranhas.

Ainda assim, Kate sabia que não chegara ao final. Castle mantinha uma certa distância. Chegou a pensar que ele se renderia e a beijaria naquele porão. Queria que tivesse feito isso, tornaria tudo mais fácil. Contudo, ser fácil não significaria ser certo ou bom. Como Dana a instruíra, deveria falar apenas com o coração, usando a sinceridade. Nesse instante, Kate entendia que admirava o homem por trás do escritor, embora soubesse que essa admiração não era o sentimento que Rick Castle procurava nela. Afinal, o que estava errado com ela?
 
Naquele dia não havia um novo caso. Beckett se concentrou em redigir o relatório que deixara pendente. Castle apareceu ainda pela manhã no distrito, porém sem um corpo não tinha o que fazer por ali. Despediu-se dela dizendo que ia aproveitar para escrever.

- No seu bar? – ela brincou.

- Sim, é um bom espaço para escrever as aventuras de Nikki.

- Falando nisso, você não me contou seu novo enredo – a conversa foi interrompida com um toque de celular. Castle atendeu parecendo feliz com a ligação.

- Ellen! Quanto tempo! Resolveu deixar Roma para visitar os caipiras americanos? – a conversa fluía entre risos. Kate não estava gostando nada disso. Quem era essa mulher? – jantar? Seria excelente. Algum lugar em especial? Ótimo. Às oito? Mal posso esperar – quando desligou ainda sorria e viu o jeito desconfiado que Beckett o olhava, não conseguira disfarçar...hum, isso podia se tornar promissor – acho que meu dia acabou de ficar melhor. Nossa! Ellen... faz quase quatro anos que não a vejo. Ela é uma grande amiga jornalista. Na verdade, editora-chefe hoje da edição italiana da Vogue.

- Eu não perguntei nada... – disse ela tentando se manter casual diante da situação, o ciúme começava a despontar nas veias.

- Ah, eu somente estou compartilhando a informação – não com palavras, mas sua linguagem corporal apenas a traia a cada tentativa de disfarçar - Fizemos faculdade juntos e depois que Kyra mudou-se para Londres, nos tornamos bem próximos, queríamos coisas parecidas, ambos caçávamos uma boa editora e acabamos juntos por alguns meses – Castle viu o olhar desconfiado de Beckett – de qualquer forma, tenho um compromisso hoje à noite.

- Percebi – do mesmo modo que notou o semblante dele se mudar, parecia um pouco sonhador. Isso não era nada bom.

- Do que estávamos falando antes?

- Do seu livro, o tal enredo?     

- Podemos falar disso outra hora, cuide da sua excitante papelada. Se tiver um bom desempenho escrevendo, talvez volte aqui para ver se já morreu de tédio sobre essa mesa e por favor, se um corpo aparecer, me ligue.

Castle escrevera muito decidindo parar por volta de quatro da tarde. Ele não queria ceder mais do que ela, porém notara todo o esforço e a mudança de Kate para tornar as coisas entre eles mais naturais e tranquilas. O telefonema de Ellen certamente mexera com os brios dela. Castle considerou o feito promissor.

A tarde de Beckett não fora tão proveitosa. Terminou seu relatório e durante todo o dia torceu para que seu telefone tocasse indicando que tinham um assassinato para investigar. Queria poder arrastar Castle numa investigação para que não pudesse ir naquele jantar. Sua obsessão por um crime refletia-se de hora em hora. Nunca esperou tanto por um toque de telefone.

Por volta das duas da tarde, quando Ryan chamou por ela, Beckett sentiu-se esperançosa pensando ser um caso.

- Temos um novo caso?

- Não, apenas queria saber se aceita um café – ele a viu suspirar frustrada.

- É tudo bem parece que ninguém quer morrer hoje. Melhor tomar um café.

- O que deu nela? – Ryan perguntou a Esposito enquanto preparava o café.

- Não sei e se quer um conselho, eu não perguntaria.

O telefone da mesa de Beckett voltou a tocar perto das quatro da tarde. Ansiosa ao ouvir a voz de Lanie já prevendo um corpo, foi novamente um engano. A amiga apenas queria enttar em contato com Esposito, ele não parecia estar atendendo o celular. Mais tarde, por volta das cinco, Beckett saia do toalete quando encontrou seu celular tocando sobre a bancada.

- Por favor, que seja um assassinato! – ela murmurava como um mantra, deixou escapar a decepção na voz – ah, é você...

- Obrigada pelo entusiasmo – disse Dana – queria que fosse Castle?

- Não exatamente. Estava rezando por assassinato.

- O que está havendo?

- Estava tudo bem, mas... Castle tem um encontro hoje à noite, quer dizer, um jantar com uma amiga e... droga! Se eu tivesse um corpo podia evitar tudo isso...

- Um jantar com uma amiga e o ciúme a contaminou. Entendo. O que a faz pensar que será um encontro?

- Porque é uma amiga querida que ele não vê a quatro anos e você não viu o jeito sonhador que estampou o rosto de Castle quando ele terminou a ligação. E se ele resolver investir? Ficar com ela?

- Acho que você tem outro motivo para rezar além de assassinato – disse Dana implicando.

- Ótimo, você sabe me animar, não? – pode ouvir a risada de Dana do outro lado.

- Ok, Kate. Já vi que as coisas não estão muito boas para o seu lado. Caso nenhum morto apareça, podemos jantar numa bela cantina italiana, tomar um bom Merlot e assim você me explicar o que há de errado. Só uma curiosidade, por que acha que um caso resolveria seu problema?

- Porque quando Castle saiu daqui recomendou que o ligasse se um caso aparecesse. Além disso, um morto é sempre algo tentador para ele, largaria o jantar no ato.

- Se você diz... bem, estou disponível se quiser conversar. Quer saber? Vou rezar por um assassinato para lhe ajudar também.

- Obrigada.

A sorte parecia não estar do lado de Kate. Não havia um caso e Castle também não voltara ao distrito. Por que quando achava que estava avançando, era obrigada a recuar? Beckett foi para casa chateada. Lembrou-se do convite de Dana, porém não estava a fim de conversar.
Quando seu celular tocou quase nove da noite, Beckett mal podia acreditar. Alguém morrera. Automaticamente ligou para Castle.

Ele estava saboreando uma entrada deliciosa regada a champagne e risos. Ellen continuava uma bela e sagaz mulher. Tinham muita conversa para colocar em dia nesse jantar. As coisas em Roma pareciam excelentes. Ela estava lhe contado sobre um evento gastronômico organizado em Nápoles pela revista quando a foto de Beckett surgiu no seu celular. Pediu licença para atender.

- Olá, Beckett.

- Você pediu para ligar se tivéssemos um corpo.

- Oh, você já está na cena?

- Não, me arrumando. Posso passar para te pegar. Onde está? – Castle olhou para a amiga a sua frente. Por mais que adorasse investigar com Beckett, não seria nada gentil abandonar Ellen no meio do jantar. Era uma escolha difícil, porém perder a chance de passar uma noite investigando ao lado da detetive não lhe parecia tão ruim a essa altura. Seria bom deixar Kate com saudades dele.

- Quer saber, Beckett? Eu passo. Realmente estou com a noite cheia. Amanhã posso me atualizar.

- Oh... – não era mesmo o que ela esperava – tudo bem. O jantar, não?

- É. Nos falamos amanhã.

Kate não podia acreditar no que acabara de acontecer. Fora trocada por uma editora? A raiva tomara conta dela. Não tinha condições de ir para rua investigar do jeito que estava se sentindo, na verdade não queria um caso à noite se Castle não estivesse ao seu lado, esse era todo o propósito de alguém aparecer morto naquela noite, tira-lo do jantar. Meu Deus! Olha o que estou dizendo? Soa tão egoísta e vil, definitivamente não podia lidar com ninguém, vivos ou mortos. Ligou para Esposito e passou o caso. Depois, deitou-se na sua cama olhando para o teto tentando imaginar que Castle não estava se divertindo.


- Droga de ciúme! – ela andava de um lado a outro da sala, realizando um monólogo pessoal, uma espécie de terapia individual - O que pensa que está fazendo, Kate? Por que Castle a afeta desse jeito? Por que precisa tanto de seu cheiro, seu toquem seu beijo? Você prometera não se entregar a qualquer nova oportunidade que pudesse lhe fazer sofrer e aqui está, sozinha em seu apartamento pensando em um homem que acabou de troca-la por um jantar. Ele está se divertindo, porque se importaria com um corpo? – passou a mão nos cabelos – porque ele se importa comigo, foi isso que Dana disse. E, eu não quero imaginar que ela esteja errada sobre Castle porque não suportaria. Se ele não gostasse dela, não se sentiria tão triste e magoado. Então, o que fazer a seguir. Queria sua companhia, gostava de tê-lo a seu lado, por Deus! Você gosta dele em tantos sentidos até naqueles que a fazem enlouquecer! Por que isso é tão difícil? Se ele ficar com Ellen, se dormir com ela, eu não sei o que farei. Kate, como você deixou o ciúme corroer a sua razão? – correu até o freezer e afogou sua frustração em um pote de sorvete.



Continua...... 

4 comentários:

Géssica Nascimento disse...

OIIIIII, adoro esta fic!!!
Você é uma escritora MARAVILHOSA!!! Prende a nossa atenção, fico sempre querendo ler, mais e mais!!!
PARABÉNS!!! :)
PS: Atualize... SEMPRE

cleotavares disse...

Oh Kate! Acaba logo com isso de uma vez, por que diabos é tão difícil admitir pro Castle e pra si mesma que está "arriada os 04 pneus" por ele. Se joga mulher! kkkk

Jenny Ribeiro disse...

A história tá incrível o/' Parabéns *-*

Thais Ildefonso Pasquinio disse...

Pensei que as coisas ficariam mais difíceis depois da aparição do Josh... Ainda bem que não hehehe
Adoro esse episódio do bar, a interação deles <3
Não foi grande avanço, mas já é alguma coisa. Assim como a Kate, também pensei que Castle a beijaria no porão huahuahua me iludi!
Kate morta de e ciúmes, como não amar? Mas confesso que até eu fiquei. Castle tá dando uma fria nela, mas ele deixar um caso passar foi </3 tadinha da Kate.
Ansiosa pelo próximo!
Beijão, querida.