quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

[Castle Fic] There's Always Tomorrow - Cap.31


Nota da Autora: Outro capítulo, e por favor, nada de querer matar a escritora antes do tempo não fiquem com raiva das notícias! Enjoy...


Cap.31                                           


- O mesmo carro que Tory encontrou na filmagem próximo ao lugar onde Collins foi assassinado. Tudo indica que é estamos presenciando uma nova tentativa de homicídio, aposto que é um dos capangas de Bracken.

- Nadine deve nos dar uma ideia de quem seja – disse Castle.

Ryan chegou junto com McQuinn. Beckett fez sinal para ele se aproximar. O detetive assim que viu o carro, trocou olhares com a tenente.

- É o mesmo carro, não?

- Sim, deve ser outra placa fria. Por favor, cheque mesmo assim. E peça para Tory olhar as câmeras do perímetro. Alerte a equipe do CSU para vasculhar com cuidado o carro de Nadine há um dispositivo eletrônico, uma espécie de GPS. Quero ele intacto. Isso vai nos ajudar na investigação.

- Nadine Furst? A jornalista da ABC? Por que alguém gostaria de mata-la? – Ryan mesmo respondeu sua pergunta – as últimas descobertas... ela está mexendo em casa de marimbondo. Espere, por que o carro da jornalista teria um dispositivo desses e por que você sabia sobre ele? – para não envolver Beckett em confusão e comprometê-la, McQuinn respondeu.

- Eu pedi para fazerem isso. Após assistir as reportagens de Nadine, quis descobrir onde ela conseguia suas informações. Tentei do modo mais simples, porém com a teimosia dela me levou a isso. Desconfiava que algo assim poderia acontecer. Tory me alertou para levar o dispositivo. Como ela está?

- Ainda não sei, vou para o hospital agora. Apreendam o carro e revirem-no do avesso. Qualquer novidade, ligem para mim. Vamos, Castle.

Ao entrar em seu carro, Kate permaneceu quieta até a chegada ao estacionamento do hospital. Finalmente se deu o direito de baixar a guarda e revoltar-se com a situação.

- Por que ela foi atrás de Vulcan novamente? Por que é tão teimosa? Arriscando sua vida! – Castle acariciava o ombro dela enquanto Kate socava o volante – droga, Nadine! Ela me prometeu, Castle. Por que ela fez isso de novo?

- Você não vai gostar da resposta. Nadine é uma jornalista, assim como escritores, algumas vezes são inconsequentes. Ela queria ajuda-la, queria a história. Talvez não tivesse a dimensão de quem é o senador até isso acontecer. Não entendia com quem lidava.

- E por isso arriscam a vida como se fosse superheróis. Vocês escrevem histórias, reportam notícias. Droga! – ela passou a mão nos cabelos – isso não devia estar acontecendo. Isso já foi longe demais. Castle, não vou aguentar ser responsável por... por... – ela não conseguia completar o pensamento, a ideia de apenas, por um segundo, considerar a hipótese fazia Kate estremecer, Castle a puxou em sua direção, abraçando-a – eu não vou suportar, Cas.

- Não pense nisso, Nadine ficará bem. Não é sua culpa, nada do que aconteceu.

- Como não? Fui eu quem insisti nessa investigação, forcei a barra e coloquei todos sob a mira de Bracken. Sou culpada por querer lutar contra alguém que não posso vencer! E por que? Por teimosia, vingança?

- Justiça, Kate. Você está lutando por justiça – Kate olhou bem séria para ele, então respondeu.

- A que custo, Castle? – ele reconheceu o olhar firme. Era o olhar determinado da melhor detetive que já conheceu. Por trás da expressão, ele sabia que havia chegado ao limite, a um momento de decisão. Tinha uma vaga ideia de qual seria o próximo passo de Kate, por causa disso nunca teve tanto medo. Ele a viu parar em frente à porta da emergência. Kate olhava para o letreiro do hospital. Por um momento, ela pensou em nunca precisar voltar a esse lugar, um arrepio percorreu seu corpo. As lembranças do Presbiterian Hospital traziam sentimentos contraditórios. Poderia ter sido o local onde Alex nasceu, porém foi onde vivera os seis meses mais angustiantes de sua vida.

- Você está bem? – ele perguntou tocando-lhe o ombro. Olhou para ele, sorrindo.

- Muitas memórias. A maioria, nada agradáveis. Tudo bem, vamos entrar - Castle a seguiu até a recepção. Kate não perdeu tempo em se identificar como autoridade policial, puxou o distintivo mostrando para a atendente.

- Lieutenant Kate Beckett, NYPD. Estou aqui para saber notícias da senhorita Nadine Furst. Ela foi trazida a esse hospital por dois colegas meus, ela se envolveu em um acidente de carro e sua vida está em perigo. Pode me levar até ela?

- Senhora, tenente... eu não posso deixa-la entrar. Não sei o estado dela, porém são regras. Apenas familiares podem entrar para vê-la em primeiro lugar. O médico terá que autorizar sua visita ou a própria paciente. Se a senhora aguardar um minuto, vou descobrir qual o status da paciente no momento – a cara de Beckett estava de poucos amigos quando Jeff surgiu correndo ao seu lado. Apreensão era o que ela pode ver no rosto dele.

- Kate, graças a Deus! Será que você consegue liberar minha entrada? Eles não me deixam ver a Nad, não me disseram nada até agora e se... – pausou – e se...

- Não, Jeff. Esse pensamento não vai ajudar em nada. Vamos aguardar as novidades que me foram prometidas. Castle, você poderia fazer uma gentileza? Leve Jeff para tomar um café, ele precisa se acalmar – virando-se para o rapaz, Beckett colocou a mão em seu ombro olhando fixamente para ele – escute, Nadine vai ficar bem. Ela é dura na queda. E teimosa, não vai se render fácil – fez sinal para Castle com a cabeça.

- Vamos, Jeff. Voltaremos em alguns minutos – observando os dois sumirem pelo corredor, Beckett realmente esperava que suas palavras e pensamentos estivessem corretos. Não estava preparada para ter em suas costas a responsabilidade pela, se recusava dizer a palavra, pela amiga.

- Com licença, tenente. A pessoa que a senhora quer ver ainda está em cirurgia. O médico cirurgião ainda está trabalhando na retirada da bala. Ainda não sabem que horas o procedimento vai terminar. Sugiro sentar e esperar, assim que puder ele vira vê-la – não adiantava insistir, Beckett agradeceu e procurou uma cadeira para sentar. Aproveitando a oportunidade, ligou para Tory a fim de saber do andamento da investigação no GPS. Ela acabara de receber o dispositivo, pediu mais um tempo a tenente para uma análise preliminar.

Frustrada, Kate esperava no saguão do hospital. Castle retornou com Jeff trazendo um café para ela também, os três continuaram esperando por notícias. Seu celular tocou, a ligação era do distrito. Ao atender, Beckett ficou aliviada por ser Tory.

- Tenente, receio não ter boas notícias. Eu avaliei o dispositivo. Pude ter uma ideia exata de todo o percurso feito por Nadine. Usando algumas câmeras disponíveis em pontos específicos da perseguição, constatei que ela realmente estava sendo seguida pelo Corolla azul metálico. O problema é que em nenhuma das filmagens é possível identificar o rosto dele. Também, baseado na hora da batida fornecida pela equipe de peritos e com as informações da patrulhinha, rastreei as câmeras próximas à cena do crime. Nosso rapaz é esperto. Tenho uma filmagem da sua escapada, porém o rosto está coberto então não pude usar um programa de reconhecimento facial para descobrir a sua identidade. Vestia-se de preto completamente, mais uma forma para despistar. Desceu as escadas do metrô na estação da Chambers St. com a West Broadway. Não há como rastrea-lo dali. Nossa esperança é Nadine. Talvez ela tenha visto o rosto do seu perseguidor. Falando nela, como está?

- Ainda não tivemos notícias. Continua na sala de cirurgia.

- Nossa! Jeff está com você?

- Sim, estamos todos ansiosos por novidades. Obrigada pelo trabalho, Tory. Espero que você tenha razão e Nadine se lembre da cara do nosso suspeito. Volto a telefonar quando tiver uma situação mais clara sobre como ela está – resignada, desligou o celular. A cada minuto que passava, Kate se via mais próxima da decisão drástica que pensava em tomar. 

Duas horas depois, um médico surgiu no saguão perguntando pela Tenente Beckett. Rapidamente ela se apresentou na frente dele com Castle e Jeff ao seu lado.

- Então, doutor,qual o estado de Nadine?

- Onde está a família dela?

- Nós somos a família dela, esse é Jeff o namorado e nós somos amigos – disse apontando para ela e Castle – estou aqui na qualidade de amiga, preciso saber como ela está.

- A cirurgia foi para retirar a bala que ficou localizada no ombro. Ela também quebrou duas costelas e por sorte não perfuraram o pulmão. O ferimento na cabeça foi profundo, havia pedaços de vidro no rosto dela que devem ter estilhaçado com o impacto. Teve muita sorte por estar de cinto. O airbag a protegeu, podia ser pior. Não fizemos uma tomografia devido à forma como ela chegou ao hospital. Está sob observação, em coma induzido para recuperação mais rápida. Ainda queremos ter certeza que não houve qualquer dano cerebral.

Ao ouvir as palavras coma induzido, Kate tremeu apertando a mão de Castle engolindo em seco. Sabia muito bem o que significava ficar à mercê do nada. Sentira na pele a experiência quando o próprio marido passou por isso. Mesmo com medo de perguntar, Kate falou.

- Quando o senhor afirma coma induzido, está dizendo que não sabe ao certo se ela vai acordar? – Jeff a olhou assustado.

- Não. No caso dela, o coma não foi provocado pelo acidente. Ela está sob efeito de medicação podendo acordar quando seu corpo sentir-se capaz de agir naturalmente. Dada a extensão do acidente, o que mais me preocupa é o cérebro, as funções cerebrais. Quando a mobilidade, terá que fazer fisioterapia para o ombro direito, está enfaixada para a recuperação do tiro e das costelas. Não há dúvidas de que precisará se afastar do trabalho. Sei que ela é jornalista, assisto o jornal das nove, tenente.

As palavras do médico trouxeram um pouco mais de ânimo para Kate. De qualquer forma, não diminuía a gravidade do ato.

- Podemos vê-la? – perguntou Jeff.

- Vou liberar a entrada de vocês, um de cada vez. Ela ainda está na UTI, portanto dez minutos no máximo para a visita, fui claro?

- Sim, doutor – disse Jeff rapidamente.

- Imagino que queira ser o primeiro – ele sinalizou para uma enfermeira no corredor fazendo-a se aproximar – Nancy, leve o...

- Jeff...

- Leve o Jeff até a área da UTI onde a paciente Nadine Furst se encontra. Dez minutos depois traga-o de volta – enquanto Jeff desaparecia pelo corredor, Beckett resolveu encarar seu papel de policial.

- Doutor, podemos falar profissionalmente? – o médico anuiu – Nadine se envolveu numa perseguição criminosa por causa de uma matéria que estava investigando. O responsável está relacionado com um outro crime que a NYPD está investigando, portanto é impressindivel que o senhor me forneça a bala retirada do corpo de Nadine, sua ficha médica e qualquer outra informação que possa ajudar-nos a pegar esse criminoso. Um relatório técnico sobre como ela chegou aqui, condições observada na sala de cirurgia e um parecer seu, seria excelente.

- Tudo bem, tenente. Farei isso. Vou providenciar para que lhe entreguem a bala, mandei guarda-la durante a cirurgia. Quando ao relatório, preciso de tempo para prepara-lo. Pode me procurar amanhã? Aqui mesmo no hospital. Meu turno acaba às dez da noite, mas a partir das oito da manhã já estou novamente aqui.

- Aqui está meu cartão. Pode enviar para o email que vê abaixo ou me ligar caso termine mais cedo do que eu possa aparecer por aqui – Jeff retornou da UTI com os olhos vermelhos.

- Kate, o rosto dela... oh, Deus! – ela ofereceu o abraço para o homem que mais parecia um menino indefeso – aqueles tubos, as máquinas. A gente vê na TV, porém nunca acredita que isso irá acontecer conosco.

- Tudo bem, Jeff. Castle vá visita-la, vou ficar uns instantes com Jeff. Vou em seguida.

- Apenas uma observação. Sugiro que ambos vão para casa. Não há o que fazer aqui, vocês necessitam de descanso. Quando ela acordar, precisará de toda a ajuda que puder. Se você me der licença, vou buscar o que me pediu – o médico se afastou enquanto Kate conduzia Jeff para uma poltrona no salão. Segurando as mãos dele nas suas, sabia que seu papel era de acalmá-lo, passar um pouco da experiência que ela vivenciara alguns meses antes.

- Jeff, quero que me escute com atenção. Sei que deve ter sido um choque ver Nadine naquele estado. Eu já passei por isso. No entanto, os prognósticos eram bem diferentes. O médico não tinha a mínima ideia de quando e se Castle acordaria. Foram os seis meses mais angustiantes da minha vida. Nadine é forte, sua condição é boa, você ouvir o parecer médico. Ela acordará quando estiver pronta. Precisará de você. De todos nós. Você não está sozinho nessa. Nadine é minha amiga, entrou nessa batalha por minha causa. Tudo bem que foi a teimosia dela que a fez... isso não importa. Ela vai ficar bem. Seja forte, Jeff.

- Eu não deixarei esse hospital enquanto Nad não acordar. Preciso ouvir sua voz, vê-la olhar nos meus olhos e provar que está bem.

- Essa é uma escolha sua. Os médicos sempre dizem que devemos ir para casa, não há nada para fazermos. Se quiser ficar, eu entenderei. Eu também fiquei – nesse instante Castle reaparece no saguão, ela abriu um sorriso ao vê-lo. Considerava um milagre estar ao seu lado depois de tudo, um gesto de puro amor. Percebeu em seu rosto que ficara abalado.

- É a sua vez – o olhar dele dizia tudo – eu fico fazendo companhia a Jeff. Não demore por favor, esse lugar não me faz sentir bem.

- Já volto.

Ao atravessar a porta que separava o saguão do caminho para a UTI, Kate andava a passos largos. Porém, no instante que a enfermeira cruzou a porta de acesso a UTI, ela travou. Beckett ficou estática diante da entrada em vai-e-vem. Pareceu voltar no tempo, há mais de um ano quando foi ver Castle pela primeira vez. Os olhos encheram-se de lágrimas, mordiscou os lábios com intuito de controlar as emoções.

- Está tudo bem? – perguntou a enfermeira.

- Sim, desculpe. Esse lugar me remete um tempo complicado. Podemos ir – intrigada, a enfermeira nada disse e Kate a seguiu até a UTI denominada 03.

- Aqui. Você tem dez minutos. É a segunda cama à direita.

Por mais que você se prepare para encarar um momento como esse, sua visão não chega nem perto do que é a realidade. Kate levou a mão à boca assim que viu Nadine pela primeira vez. Compreendia o estado de Jeff ao vê-la. O rosto da repórter estava vermelho e inchado. Havia um curativo grande envolto na testa. Um dos lados do rosto estava com pequenos cortes provavelmente feito pelos pedaços de vidro. O ombro estava enfaixado onde levara o tiro. O corpo também na altura das costelas.

Kate aproximou-se da amiga, tocou-lhe a mão obsevando o monitor. Os sinais vitais estavam lá, controlados. O que não queria dizer muita coisa, sabia bem disso. Ela perdeu a conta de quantas vezes manteve seus olhos fixos naquelas ondas verdes que passeavam na tela e não diziam nada.

- Nadine, por que você tem que ser tão teimosa? Não podia ter feito isso comigo, com Jeff. Estou numa situação delicada aqui. Parte de mim gostaria que se mantivesse dormindo, assim eu poderia garantir sua segurança, evitar que se meta em mais encrenca por causa dessa sua cabeça dura. Por outro lado, a outra parte não suporta ver você numa cama, sem reação. Jeff não merece isso, eu não mereço e você muito menos. Eu nem quero pensar se você... por Deus, Nadine! Não me faça sentir mais culpa do que eu já estou. Preciso que você acorde, quero minha amiga de volta. Você não combina com uma cama de hospital, você é uma pessoa ativa. Sagaz, determinada. A melhor jornalista que conheço, mas se um dia me perguntar eu não darei esse prazer a você. Faça um favor para nós todos e acorde – ela apertou a mão da amiga esperando para ver uma reação, nada aconteceu.

A enfermeira surgiu na UTI, Kate sabia que seu tempo se esgotara. Olhou uma última vez para a mulher imóvel na cama. Passou as mãos pelo cabelo e se recompôs. Parecia que havia um peso esmagando seu coração. Caminhou depressa pelo corredor de volta ao saguão como se quisesse fugir daquele ambiente o mais rápido possível. Encontrou Castle conversando com o médico, Jeff tomava um novo café.

- Aí está você – Castle sorriu para confortar o olhar triste que viu no rosto dela – já estou com o projétil e os fragmentos de vidro que restaram.

- Amanhã envio a papelada e o relatório – o bipe dele tocou – desculpe, preciso ir. Já deixei a enfermeira orientada, se ela acordar vocês serão os primeiros a saber. Com licença.

- Obrigada, doutor – ela se sentou por um instante procurando ganhar energia para continuar. Castle viu o cansaço e a dor estampados naquele rosto.

- Quer um café? – perguntou já sabendo a resposta.

- Não. Precisamos ir. Jeff – virou-se para fita-lo – tem certeza que quer ficar aqui? Juro que ficaria com você, mas tenho que agilizar as coisas. Preciso achar quem fez isso a Nadine.

- Não se preocupe comigo, ficarei bem. Prometo que ligo se ela acordar.

- Quando ela acordar – Kate o corrigiu.

- Tudo bem – ele disse num sorriso cansado. Kate inclinou-se e abraçou-o. Castle fez o mesmo. Ao virarem para deixar o hospital, Kate procurou a mão de Castle como um apoio, um esteio. Ela precisava muito de sua companhia agora. Assim que o carro ganhou a rua, Beckett tomou a direção do distrito. Pegou o celular e ligou para McQuinn – oi! Você está no 12th?

- Sim, estava revendo as filmagens que Tory e Ryan conseguiram para ver se encontrava um ângulo que fosse favorável para rodar o programa de identificação do FBI. Até agora nada. Como está Nadine?

- Saiu da cirurgia e está na UTI. Coma induzido. Ela não está nada bem quando falamos de aparências. Estou indo para aí levar a bala, conversamos depois.

Era inútil tentar convencê-la de outra coisa, por isso Castle manteve-se calado esperando que pudesse em algum momento encontrar um meio de dar uma parada. A exaustão tomava conta dela, porém o que mais incomodava era a preocupação retratada em seu rosto, havia uma linha tênue entre isso e culpa.

Passava das dez da noite quando o capanga de Bracken chegou ao Brooklyn. Estando próximo a sua casa, ele sacou o celular. A primeira tentativa caiu na caixa de mensagem. Ligou novamente, então a voz apareceu do outro lado.

- Está feito.

- Devo me preocupar com algo?

- Não, a repórter vai passar um bom tempo longe das câmeras.

- Certo, vamos esperar a reação de Vulcan. Mantenha-se longe da atividade do FBI. Não podemos dar bandeira. 

Chegando no 12th distrito, Beckett foi direto à sala onde McQuinn e Tory trabalhavam, a exceção de alguns policiais, o local estava bem vazio. Castle foi direto a minicopa para preparar um café. Apenas de olhar para a tenente, os dois reconheciam a preocupação. Sentou-se de frente para eles relatando o que acontecera a Nadine, informou que Jeff ficara no hospital aguardando.

- Não foi fácil, ele ficou abalado após vê-la. Confesso que eu também – Castle entrou na sala trazendo café para todos, ela ficou por uns segundos observando-o. Suspirando, tomou um pouco do café. Retirou da bolsa o saco plástico com as evidências entregues no hospital – aqui está a bala e alguns estilhaços de vidro, apesar de achar que eles não dirão nada referente ao assassino – McQuinn examinava a bala – é uma 9mm, provavelmente da mesma arma que matou Collins. Algum sucesso com os vídeos?

- Nada. Eu e Tory já estamos quase vesgos de olhar essas filmagens. Nossa esperança é Nadine.

- E quanto à cena do crime? O que o CSU recolheu? Temos digitais?

- Ainda temos algumas fibras em análise, mas nada de digitais. O cara realmente se precaviu. Dá pra ver nas imagens que ele está de luva. Esse cara é profissional. Recolhemos a câmera de Nadine. Com a batida teve a lente danificada e foi amassada, porém pudemos recuperar – Tory passou uma pasta para Beckett – ela tem um bom material aqui. Flagrou o tal chinês que é dono da suposta fabrica de confecção entrando no escritório de Vulcan, trinta minutos depois, ela os fotografou saindo. Ali começou a perseguição ao nosso homem e também a Nadine. Interessante que ela descobriu que estava sendo seguida, tanto que em um dado momento, tentou tirar a foto do seu possível agressor, posso chama-lo assim depois do que aconteceu – McQuinn mostrou uma outra foto que não estava no bolo que Tory passou a Beckett – como você sabe o corolla tem insulfilme, a posição também não favoreceu a tomada, porém estamos trabalhando com um programa exclusivo do FBI para clarea-la ao máximo para termos uma imagem precisa. Assim que Tory conseguir, rodaremos o programa de identificação.

- Pelo menos essa loucura toda de Nadine pode ter nos rendido uma pista boa.

- A placa do carro é fria e o chassis roubado, estamos procurando porém duvido que cheguemos a algum lugar. Não há muito o que fazer hoje, Kate. Melhor irmos para casa. Particularmente, estou com meus olhos ardendo. Amanhã cedo passarei primeiro no laboratório. Quero examinar essa bala e a que matou Collins. Quero ver se conseguimos rastrea-las de alguma forma. Estou dando tiros no escuro – deu de ombros – não custa tentar. Tory, vá pra casa também. Precisa de um bom descanso.

- É verdade. Beckett, qual o hospital que Nadine está? Estou pensando em passar lá antes de vir para o trabalho. Tudo bem se eu fizer isso?

- Claro, Tory. Eles estão no Presbiterian.

- Obrigada. Boa noite.

- Boa noite, Tory – disse McQuinn já se arrumando e fechando o notebook.

- Kate, devemos ir também – ela olhou relutante para o marido – estaremos cedo por aqui. Boa noite, McQuinn – guiando Kate até o elevador com a mão em suas costas, Castle se preparava para uma possível conversa ao chegar em casa.


Loft dos Castle


A primeira coisa que Kate fez ao chegar em casa foi ir direto para o quarto do filho. Alex dormia tranquilamente em seu berço. Ela se debruçou sobre a estrutura de madeira para acariciar os cabelos castanhos claro do filho e admira-lo um pouco. A visita aquele hospital mexeu muito com a mente dela, o estado de Nadine também. As lembranças, ao contrário do que pensava, ainda estavam bem vivas na memória. Olhar para o filho acalmou um pouco seu coração. Em nenhum momento Castle a forçara a conversar sobre o assunto mesmo sabendo que isso era inevitável. Após beijar a cabeça do menino, ela saiu à procura dele.    

Já estava de pijamas sentado no balcão da cozinha esperando o café aprontar. Estava preparando um latte com bem mais leite que café, pois queria que ela dormisse. Podia ter pensado em um chá, porém sabia que seu esforço seria em vão. A torradeira preparava torradas francesas. Kate beijou-lhe a nuca.

- O que você está fazendo, babe?

- Preparando um café com torradas para a minha tenente. Por que não toma um banho, veste aquele pijaminha de flanela que tanto gosta e vem sentar aqui para fazer esse lanche? Não comemos nada há quase oito horas.

- Tudo bem, volto em cinco minutos – Castle teve apenas tempo de arrumar o jogo americano, colocar as canecas na mesa e as torradas. Kate já voltara à cozinha.

- Quer cream cheese ou geléia para acompanhar suas torradas?

- Pegue a geléia e a manteiga de amendoim. Preciso de comida agradável – ele serviu-a de café e leite retornando à geladeira para pegar a geléia além do vidro no armário – aqui. Fique à vontade – percebeu que a caneca já estava abaixo da metade. Ele pegou o pote de cream cheese que já estava na mesa colocando uma quantidade generosa sobre seu pão. Kate mordeu com vontade o sanduiche que fizera – como foi sua visita a Nadine? – vendo que o silêncio permaneceu por longos e inquietantes segundos, insistiu – Kate, temos que conversar sobre isso.

- Eu sei, Castle – ela deixou o sanduiche sobre o prato, o olhar perdido fitou o fundo da caneca – foi horrível. Quando vi Nadine deitada naquela cama não pude evitar lembrar o que passei. Voltou tudo. As noites difíceis, o não saber, a angústia. Eu provoquei isso, Cas. Eu coloquei Nadine à frente dessa loucura. Instiguei que ela ficasse procurando o que não devia. E se ela não acordar? Se ficar três, seis meses, um ano em coma? – os olhos de Kate estavam mareados de lágrimas – estou num conflito muito grande.

- Kate ninguém entrou nessa investigação obrigado. Todos sabiam dos riscos, você foi bem clara. Não pode se culpar pelo que aconteceu com Nadine. Olhe, jornalistas são audaciosos, se arriscam por uma boa matéria. Eles são como eu, se sentem um policial sem arma, não medem consequências, porém entendem que podem morrer arriscando-se. Nem consigo imaginar o que significou estar naquele lugar para você. Mas Kate, tenho um pedido a fazer talvez o mais importante. Não se culpe, não faça nenhuma besteira. Por favor...

Kate acariciou o rosto dele com as pontas dos dedos, inclinou-se para beija-lo.

- É bem mais difícil do que você possa pensar. Castle, sei que você está preocupado comigo, acredita que eu vou correr atrás de Bracken para vingar Nadine – passou o polegar nos lábios levemente – não vou. Na verdade, tenho outra ideia em mente. Somente não quero falar sobre isso agora. Podemos apenas comer?

- Tudo bem. Vamos comer – ela voltou sua atenção para o sanduiche. Entendia que ao dizer aquelas palavras a Castle, aliviaria um pouco o peso em seu coração, faria com que ele relaxasse mais. Não o enganara. Ela não ia sair correndo jurando vingança a um ser tão vil como o senador. Não depois de todos os danos que ele já causara em sua vida e na de outros.

Quando terminou, seguiu para o quarto dizendo a Castle que o esperaria lá. Castle se acomodou debaixo das cobertas sentado apoiado no encosto da cama. Kate checava seu celular em busca de uma possível novidade. Não havia uma sequer. Colocando o aparelho na cabeceira ao seu lado, ela aproximou-se do marido. Começou a beijar a mandíbula, o pescoço, aconchegando-se até sentir a mão de Castle em sua nuca encontrando seus lábios para um beijo. Todo o carinho, o zelo e a ternura traduzida em um beijo.

Ao se afastar, Kate acariciou seu rosto e sorriu. Queria gravar cada pedacinho daquela face. Suspirou.

- Eu te amo, sabia?

- Eu sei... – pegou a mão dela bejando-lhe a palma – o que você decidir fazer, vou aceitar.

- Por que está dizendo isso?

- Porque eu conheço você, está matutando alguma nova ideia nesse seu cérebro. Tomará uma decisão. Eu a apoiarei exatamente como já fiz em diversas outras vezes – ele se ajeitou no seu lado da cama até deitar-se completamente. Puxou-a para perto fazendo Kate pousar a cabeça no peito dele – melhor dormirmos.

- Sim, quero ir cedo ao hospital antes de seguir para o distrito. O silêncio pairou entre eles, Castle já fechara os olhos quando a voz de Kate se fez ouvir novamente – Cas, você acha que Nadine vai demorar a acordar?

- Não acredito. Logo ela estará tagarelando entre nós.

- Espero que sim – foram as últimas palavras dela antes de adormecer.

Conforme prometera, Kate retornou muito cedo ao hospital. Nada mudara no quadro de Nadine. Conversou um bom tempo com Jeff que após muita insistência de Castle, cedeu e tomou um café da manhã melhor. Ela aproveitou para verificar se o médico já tinha deixado o relatório e a ficha médica de Nadine como pedira antes. Ficou satisfeita em saber que ele já entregara a papelada à enfermeira-chefe. Pediu para ver a amiga antes de ir.

Na UTI, ela apenas velou o sono forçado da jornalista reservando aqueles poucos minutos para fortalecer o que já decidira desde ontem ao vê-la pela primeira vez. A ida ao distrito mostrou-se frustrante. O caso em nada avançara. Saindo do hospital, ela dirigiu-se até a redação onde Nadine trabalhava. Anunciou sua chegada como membro da polícia e a secretária a encaminhou para a sala do editor-chefe.

- Lieutenant Beckett, o que a trás a minha redação?

- Acredito que as notícias ainda não chegaram até o senhor. O que apenas prova que Nadine Furst é uma excelente jornalista, não teria deixado esse furo escapar.

- Do que você está falando? – ele estava confuso – Nadine deve aparecer logo por aqui amanhã é sua estreia como ancora do nosso jornal das nove. Que noticia apimentada você se refere, tenente?

- Nadine sofreu um acidente ontem à tarde após uma perseguição pelas ruas no centro de Manhattan. Ela está internada no Presbiterian Hospital – viu a cor sumir do rosto do homem que se deixou cair na cadeira – ela passou por uma cirurgia e está na UTI em coma induzido. O motivo da minha visita aqui é para pedir sua discrição quanto ao caso. Tenho razões para acreditar que isso é retaliação devido às últimas noticias divulgadas por ela. Certamente há uma conexão, porém não posso afirmar nada sem uma investigação apropriada. Gostaria de pedir sua cooperação para divulgar apenas que Nadine sofreu um acidente e está operada. Não mencione nada além. Qualquer suposição pode levantar discussões, atiçar a imprensa, pois poderemos comprometer a investigação nossa e do FBI.

- Meu Deus! Qual o prognóstico médico?

- A cirurgia correu bem, tudo depende da recuperação dela.

- Nossa – o homem passou as mãos no rosto, estava suando devido ao nervoso – tenente, pode contar conosco para a discrição. Vou reunir a equipe de redação e explicar sobre o acidente. Não revelarei nada sobre a perseguição. Para todos os efeitos, a senhora esteve aqui apenas como amiga. Ainda é difícil de engolir... quem está com ela no hospital? A senhora deve saber que Nadine não tem família. É filha única e ambos os pais estão mortos. Ela herdou uma boa poupança do pai que era advogado, mesmo assim, achou no jornalismo sua vocação.

- Eu não sabia disso – falou Castle.

- Então, ela tem dinheiro. Podia estar viajando pelo mundo, casada, mas encontrou no jornalismo um amante para toda a vida. Vou ter que adiar a sua estreia.

- Quem está no hospital é Jeff. Ele é um amigo íntimo.

- E uma de suas fontes. Sei da ligação dela com o rapaz, desde a faculdade. Fui professor dela no último ano, na cadeira de televisão.

- Posso contar com o senhor então?

- Claro, tem minha palavra. Irei noticiar o fato sem comprometer em nada sua investigação, vou ao hospital também. Qualquer novidade me mantenha informado.

- Farei isso – estendeu a mão para cumprimenta-lo.

- Tenente, quero que saiba que nossa redação a tem em alta conta. Saber que está pessoalmente envolvida no caso me dá um conforto adicional. Você é uma das melhores da NYPD. Obrigado por olhar pela Nadine.

- Ela também é minha amiga, senhor. Obrigada pelo seu tempo – na saída da redação, Castle elogiou a forma como conduzira a conversa com o editor. Afirmou que aos poucos descobria que Nadine tinha mais semelhanças com ela que podia supor. Cada uma em sua área de atuação. Nenhuma notícia surgiu para ajuda-los na caçada ao algoz de Nadine. Um dia todo sem absolutamente nada.    

Um novo homicídio surgiu na manhã seguinte trazendo a necessidade de honrar mais uma vítima. Dessa forma, Beckett dedicou-se a buscar respostas para outra família que, como ela, sofrera uma perda difícil. Durante aquelas 48 horas, a tenente fez o que era sua responsabilidade, seu dom. Pode colocar outro criminoso atrás das grades minimizando a dor no coração dos Wilsons com a morte da filha.

McQuinn encarregava-se da investigação lenta. Não havia novidades para acrescentar qualquer insight naquele caso mesmo com o atentado à vida de Nadine. Fez o que comentara com Beckett, comparou as balas e as passou por um programa especial do FBI onde através de uma marca de fabricação pode-se determinar de que parte do país veio e quando foi fabricada. Era um tiro no escuro. Pedira ajuda a um amigo de Washington para fazer a pesquisa. O resultado deveria ficar pronto em dois a três dias.

Castle acompanhara a tenente em sua investigação, nem bem terminaram um caso, outro homicídio bateu em sua porta. Ficou feliz ao ver que mesmo com tanta preocupação na cabeça, a incerteza sobre a vida de Nadine, ela continuava sendo a mesma mulher extraordinária que conheceu a anos atrás. Com foco e objetividade se doava a honrar a vítima e sua família. Dessa vez era um homem, pai de dois filhos. Um caso de latrocínio, roubo seguido de morte, ver aquelas crianças mexeu muito com os brios de Beckett, especialmente agora que era mãe. Trabalhava com afinco para descobrir quem o assassinara.

Essa era a sua musa, sempre colocando os outros a frente de si mesma. Dedicando seu tempo e seu conhecimento para ajuda-los, tornar sua dor menos difícil. Tinha muito orgulho de observa-la, estar ao seu lado, ama-la.

O relógio marcava cinco da tarde quando Castle aproximou-se da mesa dela com duas canecas de café. Ela estava desligando o telefone fazendo algumas anotações gritou por Ryan. Pediu para ele investigar uma loja de conveniência e duas câmeras de rua próximas a estabelecimentos roubados naquele mesmo dia. Tudo indicava que o assalto a Charles fora o último de vários naquele dia.

Castle entregou-lhe a caneca com o café fumegando. Tomou um longo gole e ficou olhando para o belo de olhos azuis a sua frente. Às vezes ficava tão focada em suas investigações que esquecia de tirar um minuto para respirar. Ele nunca esquecia. Quando suas energias estavam no limite, ele adivinhava. Trazia-lhe café ou encontrava uma forma de suavizar o pesado trabalho de detetive com uma das suas teorias malucas ou uma brincadeira. Era grata por isso, sorriu.

- O que foi? – ele perguntou.

- Nada. Estava pensando que deveríamos ir ao hospital, fazer mais uma visita a Nadine. Dar apoio ao Jeff. Há três dias não voltamos lá.

- Tem razão. Podemos sair daqui e passar lá com os dois. Alexis está em casa, pode ficar com o irmão. Vou ligar para ela.

- Obrigada – disse apertando a mão dele.

Ao chegarem no hospital, nada mudara realmente. O estado de Nadine continuava o mesmo. Jeff estava com um ar de cansaço enorme. Mais cedo tinha ido para casa descansar um pouco e trocar de roupa. Kate encontrou Tory visitando-o também, fora ela quem ficou com a amiga quando Jeff saíra. Conversaram algum tempo com eles. O médico havia transferido a jornalista para um quarto no primeiro andar por julgar que sua situação estava estável. Kate sabia muito bem o que aquilo significava. Dias e dias de espera amargurada. Todos os minutos de seu dia ansiando por um sinal, um pequeno gesto, um abrir de olhos. Sentiu o coração apertar. 

Jeff contou a eles que vários colegas de redação passaram por lá querendo saber notícias dela. Recebera muitas flores e seu editor passou quase duas horas na companhia dele conversando sobre a sua funcionária, seu choque pelo que aconteceu e por estar confiante que ela sairia dessa. Kate bem sabia que a notícia do acidente tinha recebido uma repercussão enorme em suas concorrentes. Nadine, novamente, foi um arraso para a audiência. Adorará saber quando acordar. Jeff estava confiante e feliz por ver o quanto a repórter tinha fãs. Havia várias pessoas na entrada do hospital perguntando por ela, querendo novidades. Por meio do jornalismo, descobriu que ela influenciava vidas e jovens.   

Após duas horas na companhia deles, retornou para casa. Depois de um momento tão triste e pesado, tudo o que ela queria era brincar com o filho. Enquanto Alexis e o pai colocavam o papo em dia esperando o jantar que pediram do Le Cirque chegar, ela estava sentada no chão da sala brincando com o menino e ouvindo parte das histórias de faculdade. Ao mencionar sobre um acadêmico de direito muito metido, Kate não pode deixar de prestar atenção ao que Alexis dizia.

- Quer dizer, ele conhece muito sobre as leis como tramitar pelas facetas do direito, mas é um zero a esquerda quando o assunto é entender o cliente e as nuances de um homicídio. Direito criminal não é a área dele. Tenho certeza que Kate daria um show, arrasaria com ele se o visse falando. Talvez isso o colocasse em seu lugar.

- Direito e lei criminal é algo que andam juntos. Mesmo sendo da polícia, você deve conhecer as regras do direito. O bom advogado é aquele que entende as leis, a rotina da policia mas principalmente o seu cliente. Infelizmente, muito usam o direito como uma ferramenta para ganhar dinheiro, puro e simples. Esquecem de um dos seus fundamentos principais: fazer justiça e servir a sociedade para mante-la em harmonia – Alexis ficou olhando por um momento para a mulher sentada no chão com o filho bagunçando seus cabelos abraçado ao corpo dela.

- Kate, você já pensou em fazer Direito? – a pergunta não a surpreendeu.

- Você quer dizer, voltar para a faculdade? Continuar a saga do Direito? Eu fiz um semestre de pré-law antes de entrar para a academia, estaria formada e provavelmente exercendo o Direito como minha mãe, com ela. Sua pergunta foi a mesma da Capitã Gates alguns meses atrás após trabalhar em conjunto com a promotoria. Naquela época não levei muito a sério. A ideia de voltar a estudar com uma criança pequena dependendo de mim não parecia ideal. Hoje talvez pense um pouco diferente.

- Você não me disse isso... – Castle comentou.

- Porque não cogitei essa possibilidade. Gosto do que faço na NYPD, não me vejo advogando. Gates sugeriu o curso para alavancar minha carreira na polícia. Com os caminhos que vem se formando na minha vida ultimamente, revisitar a ideia não me parece tão ruim. O problema é consciliar tudo. Mesmo assim, não me vejo sendo capitã do meu distrito somente porque sou bacharel em Direito. Se conseguir chegar ali, será pelo meu trabalho das ruas, o conhecimento investigativo.

- Entendo, talvez alguns cursos de aprimoramento especialmente no Direito Criminal possam ser um adicional para sua carreira. Hoje as universidades possuem cursos online bastante flexíveis para sua condição. Se quiser, posso pesquissar e me informar para você. 

- Eu apoio a ideia, você merece dirigir seu próprio distrito. Se decidir por isso, estarei ao seu lado como todas as vezes.

- Obrigada aos dois. Não sei se esse é o caminho realmente.

- Vou procurar mesmo assim, depois você decide – afirmou Alexis.


Uma semana depois...


Kate dormia enroscada nas pernas de Castle. Estava sonhando com o carro da polícia, ouvia uma sirene insistente. Naquele momento em que o sonho é um estágio leve do sono, percebeu que o barulho vinha de seu celular tocando. Ainda grogue com a inércia do descanso, ela se sentou na cama esfregando os olhos. O relógio ao lado da cama marcava 3:47 da manhã. Ao ver o nome no visor, porém, ficou totalmente alerta. Respirando fundo atendeu. 

- Jeff? O que aconteceu? – o coração já batia apressado.

- Kate... – podia-se escutar o choro – ela acordou... Nadine, acordou.

- Meu Deus! – o sorriso aliviado tirou a preocupação de seu cenho – isso é uma excelente notícia! Graças a Deus. Vou me arrumar e encontro você no hospital – desligou o celular, fechou os olhos e fez uma prece silenciosa. Dessa vez, não carregaria a culpa pela perda de alguém querido. Voltou a colocar o celular sobre a cabeceira, deitou-se do lado de Castle e calmamente começou a acorda-lo com beijinhos, carinhos, chamando seu nome.

- Cas.. acorda, Castle...Castle...

- Hummmm... quem morreu? – ele perguntou sonolento.

- Ninguém, pelo contrário.

- Seu celular tocou, só pode ser alguém que foi detonado... – ele não abriu os olhos, a voz baixa pesada pelo sono.

- Acorda, babe. É sobre Nadine. Ela acordou – Castle abriu os olhos, fitou-a.

- Tá, acordei... o que foi?

- Nadine acordou – finalmente a ficha caiu – foi Jeff quem ligou. Quero ir vê-la. Acho que ela está bem, Cas. Mas preciso ter certeza – ele a abraçou e beijou-a, estava aliviado por ver a alegria naqueles olhos verdes.

- Tudo bem, antes eu preciso de uma boa dose de café – totalmente desperta, ela pulou da cama sorrindo.

- Pode deixar que eu faço, volto já.

Entre tomar café e arrumarem-se, eles acabaram levando mais tempo que imaginavam. Kate deu a primeira mamada para Alex antes de sair com o menino ainda dormindo. Eram cinco e meia quando deixaram o loft. A chegada ao hospital foi tranquila. Dirigiram-se após identificação para o quarto de Nadine. Ao abrir a porta e ver a amiga, Kate prendeu a respiração por alguns segundos. O sorriso se alargou ao encontrar o olhar de Nadine.

- Pensou que ia se livrar de mim, Lieutenant? – também sorrindo. Kate se aproximou da cama, apertou a mão dela, os olhos cheios de lágrimas. 

- Nadine... já ouviu falar que vaso ruim não quebra?

- Você não quer dizer teimoso? Conheço alguém parecido...

- Como você está?

- Além das dores todas no corpo? Acho que fui atropelada por um caminhão. Fora isso, estou bem. Um pouco zonza e sonolenta.

- Exceto pela língua. E o cérebro. O que o médico disse, Jeff?

- Ele vai esperar seu médico oficial para realizar a tomografia. Mas segundo sua avaliação, ela está bem. Sinais vitais fortes, coração, pulmões e rins trabalhando.

- Ah, Kate... quando acordei estava muito assustada. Eu lembrava da perseguição, de como eu acelerei meu carro para escapar. Mas não era tudo claro, eram pedaços embaralhados. A última coisa que me lembro é de pensar em você e Jeff. Você disse para mim que precisamos arriscar algumas vezes na vida. Achei que era o fim. Logo quando estava tão feliz, graças a você, Kate – ela chorava – você tornou isso possível.

- Jeff, melhor você chamar o médico. Definitivamente o cérebro dela foi afetado – Kate disse sorrindo.

Nesse instante, a enfermeira chegou com o café da manhã para Nadine.

- Bom dia! Vamos comer? – a moça risonha cumprimentou a todos – depois será que posso ter seu autógrafo, depois que conseguir escrever com esse gesso no braço. Sou sua fã – Kate trocou olhares com Castle.

- Vamos aproveitar para comer algo? Você sabe se o doutor vai demorar?

- Não, já está fazendo a ronda. Deve leva-la para a tomografia.

- Castle, vamos deixar Nadine se alimentar em paz. Quando ela voltar do exame, vamos ter uma conversinha bem séria.

- Lá vem você, Kate. Vou ouvir sermão novamente?

- Quer dizer que não merece? Depois de tudo o que você fez? Não vamos antecipar as coisas. Tome seu café, depois conversamos.  

Kate saiu do quarto acompanhada de Castle rumo a lanchonete do hospital. Nada havia mudado por ali. Apesar de não ser o lugar mais animado, durante seis meses aquilo foi o mais próximo de convivência que tivera. Muitas vezes o local ficava vazio, especialmente à noite. Ela se perguntara se a moça estudiosa e simpática da madrugada ainda trabalhava ali. Como era mesmo o nome dela? Sarah! Por uma rápida olhada soube que a moça não estava lá. Castle comprou café e bearclaws para os dois. sentaram-se em uma mesa um de frente para o outro.

- O que pretende dizer a Nadine? Vai mesmo brigar? Ela não está em condições de discutir, precisa se recuperar totalmente.

- Eu sei disso, Castle. Não vou fazer nenhuma cena. Vou dizer umas verdades apenas, uma bronca por assim dizer e quando eu terminar, você também entenderá que a conversa não foi em vão.

- Você tomou sua decisão então? Não irá compartilha-la comigo antes? – Kate suspirou profundamente.

- Melhor não. É muito doloroso contar isso duas vezes. Desculpe – ela tocou a mão dele – por favor...

- Não precisa pensar assim. Você me contará no tempo certo.

- Que será logo... – ela tomou o resto do café – só preciso saber de algo – ela se levantou dirigindo-se ao balcão – com licença, oi! – a atendente sorriu – você pode me dizer se uma moça chamada Sarah ainda trabalha por aqui?

- Sim, ela é do turno da noite. Entra às dez horas. Algum problema?

- Não, eu a conheci e esperava falar com ela. Tudo bem, eu venho outro dia à noite. Obrigada – Kate se afastou na direção de Castle, fazendo sinal para que ele se levantasse seguindo com ela pelos corredores do hospital de mãos dadas até o quarto de Nadine. Olhando para Castle, buscou no azul dos olhos o conforto – vamos logo terminar esse assunto.

Nadine já voltara da tomografia, o médico estava comentando que ela precisaria levar a fisioterapia para o braço a sério, no mínimo três meses. As costelas estavam bem, já desincharam e o ombro precisa de trocas de curativos e limpeza diária. Decidiu por dar alta à repórter na manhã seguinte. Também assinaria uma dispensa de um mês do trabalho que seria reavaliada por ele dali a vinte dias, podendo ser extendido dependendo da recuperação.

O médico se despediu e deixou-os sozinho.

- Que ótima notícia, Nad! Você irá para casa amanhã – Jeff sorria feliz e aliviado – como esperei por esse dia. Preciso organizar as coisas na sua casa, deixa-la limpa e você sabe que vou acampar por lá esse mês, alguém deve cuidar de você.

- Isso mesmo, Jeff. Precisa garantir que ela não trapaceie na fisioterapia – disse Castle – além de evitar que ela queira fazer estripulia, eu sei que é horrível, Nadine, acredite a dor é bem pior.

- Agora que já trocaram dicas, acho que posso falar de outro assunto. Quero saber do acidente e suas consequências.

- Você quer tomar meu depoimento? Sem problemas, Kate. Quero cooperar ao máximo com você. Na verdade, até estranhei que você tenha demorado tanto para procurar respostas. Recuperaram minha câmera?

- Recuperamos. Vi as fotos também e Tory está trabalhando em algumas delas em busca de respostas. Não é sobre isso que quero falar. Nós já discutimos uma vez sobre isso e não irei voltar a brigar mesmo porque você ainda está se recuperando. Nadine, por que foi seguir Vulcan novamente? Por que fez isso nas minhas costas, sem avisar? Você poderia ter morrido! Teve muita sorte.

- Fiz no impulso, pressenti que seria uma boa hora. Não contei porque sabia que não deixaria eu ir ou se jogaria sozinha querendo persegui-lo. Foi uma maneira de proteger você.

- Ah, que ótimo! Você pensou em me proteger colocando a sua vida em risco? Não pensou que se você morresse a culpa seria minha? Bela proteção. Você se expos ao inimigo – Nadine pode sentir a angústia na voz da amiga, não era a tenente que falava, ali estava a culpa por não poder protegê-la.  

- Sou uma jornalista, estava fazendo meu trabalho. Liberdade de expressão, Kate. Ninguém pode me acusar de nada. Estou amparada pela lei.

- A lei não existe para homens como Bracken, você estar nesse hospital prova isso – Kate passou as mãos nos cabelos – por causa de tudo o que aconteceu e vem somando-se ao longo desses meses, eu tomei uma decisão. Talvez a mais difícil em muito tempo – ela olhou para Castle que a confortou com o olhar – vou suspender a investigação.

- Você não pode, Nadine merece justiça – disse Jeff.

- Não estou falando do atentado contra ela, Jeff. Estou me referindo a nossa investigação, ao projeto. Mais de quinze anos procurando por respostas, por uma pista, algo capaz de mudar a perspectiva de tudo o que já conheço sobre a morte da minha mãe e torna-la possível de ser provada e encerrar de vez essa dívida de justiça. O que eu consegui? Ameaças, arrisquei a vida das pessoas que gosto, estive perto da morte. Diacho! Eu devia estar morta, Castle devia estar morto.

- Mas não estão! – disse Nadine – isso não significa nada?

- Sim, Nadine. Significa muito. Estamos juntos, somos uma família. Talvez esse seja o legado do caso da minha mãe, me fazer perceber que eu precisava de uma família. Tenho Castle e Alex. Quero pensar no meu filho antes de mais nada. Conseguimos algumas informações, avançamos nas investigações, mas seu acidente foi o divisor de águas por assim dizer. Então, estou comunicando oficialmente que as reuniões no The Old Haunt e o projeto, acabaram.

- Kate, mas eu tenho novidades. Posso identificar o meu perseguidor, faço o retrato falado. Não precisamos parar – Nadine tentava em vão convencer à amiga. Já entendera que não voltaria atrás em sua decisão.

- Nadine, você pode procurar McQuinn. Ele continua investigando pelo FBI. Sugiro você dividir tudo o que sabe com ele.

- Essa investigação é sua também, Kate. Não vire as costas agora.

- Continuarei auxiliando no que puder, temos casos no distrito de assassinatos para solucionar também. A vida continua, o caso Johanna Beckett está fechado, virou um caso antigo não porque o detetive Reglan o arquivou e sim porque eu decidi. Espero que assim que estiver bem, possa me contar detalhes da sua nova fase. Vá ser a âncora do jornal das nove, Nadine. Você merece. Se quiser fazer uma matéria sobre outro homicídio, basta me ligar – ela virou-se para Jeff – obrigada por tudo, Jeff. Significou muito para mim. Não sumam.

Sentindo a mão de Castle em suas costas, ela acenou mais uma vez para Nadine e saiu. No corredor, seu andar tornou-se mais rápido, pisava forte acelerando o passo para sair daquele lugar. No estacionamento, ela parou um instante respirando fundo. Castle colocou o braço ao redor da cintura dela, aproximando-a de seu corpo.

- Tudo bem?

- Não sei... – ele ergueu o queixo dela para que pudesse contemplar seu olhar – vai ficar, Cas. Essa é a minha decisão e não volto atrás. Preciso que você esteja ao meu lado, me dando forças. Quero conversar um pouco mais sobre isso, Castle. Não agora. Vamos para o distrito. Temos casos para resolver.

- Isso não é uma fuga para evitar de me contar o que está sentindo, certo?

- Não, vou falar com você. Quero trabalhar ao seu lado, depois iremos para casa, jantaremos como uma família normal, brincarei com o meu filho. Conversaremos e faremos amor juntinhos. Tenho que pedir um favor a você.

- Qualquer coisa – ele segurou o rosto dela nas mãos – tudo o que quiser... – beijou-a com carinho.

No quarto do hospital, Nadine segurava a mão de Jeff. Pensava sobre o que Kate dissera.

- Nad, você acredita que isso é verdade? Kate realmente desistiu da investigação? Ou de repente, ela só está um pouco abalada com o que lhe aconteceu?

- Não, Jeff. Ela falou sério, infelizmente. Queria muito que fosse da boca pra fora. Não foi uma decisão fácil. De certa forma, entendo o que fez. Se ela estiver em paz com a escolha, se isso for o melhor para que continue sua vida, que seja.

- Nadine, eu não vou parar. Não acho justo desistirmos. Se Kate não quer manter o projeto, nós continuaremos trabalhando ao nosso modo. Levaremos mais tempo certamente, mas não podemos deixar um homem como aquele senador impune.

- Podemos trabalhar com McQuinn, o FBI ainda tem interesse em tudo, precisa dar uma resposta para o meu atentado.

- Nad, não estou falando de ajudar o FBI, quero continuar o que nós começamos. Estou quase terminando de quebrar a barreira do banco de dados, acharemos algo palpável ali. Teremos que manter segredo, você concorda em investigar comigo?

- Se você está disposto a isso, eu estarei com você. Devo isso a Kate.


- Sim, nós dois devemos – beijando-lhe os lábios. 


Continua...

2 comentários:

cleotavares disse...

Será que a Kate desistiu mesmo? Humm, acho que não. Mas, deveria. E a Nadine, será que descobrirá o assassino da mãe de Beckett? Aguardo o desenrolar dessa bela história.

Marlene Caskett Stanatic disse...

Tô mais calma,mas o medo ainda permanece olha la o que vc vai aprontar já, mantenha o Espírito de natal.
Que bom a Nadine ta bem, o que ñ acredito é a Kate ter desistido huuuuuuuum.
Lembre-se tenho uns contatos por ai hahahahhahahhahahahhahaha